No século XVI, na incipiente universidade da cidade de Wittenberg, atual Alemanha, um dos professores era um monge agostiniano. Antes, ele havia cursado Direito visando a carreira advocatícia. Entretanto, oprimido espiritualmente e sacudido pela experiência de quase morrer em uma tempestade, mudou de rumo. Ele adentrou à ordem religiosa agostiniana especificamente porque ansiava encontrar paz com Deus. Porém, como monge não a encontrou, apesar das intensas devoções, confissões e autoflagelos. Percebia que estava sempre em falta.

Depois, como professor em Wittenberg, já Doutor em Teologia, erudito nas línguas bíblicas hebraico e grego, esse monge lecionou sobre livros da Bíblia. E seus estudos da Bíblia o levou a romper com o ensino que tinha recebido. E essa descoberta se deveu particularmente ao seu estudo do livro de Romanos, escrito pelo apóstolo Paulo (Bíblia). Para ele foi libertador e radical. Ele descobriu a graça eficiente em Cristo, encontrando paz perene com Deus.

Júlio II era papa naqueles tempos. Era um papa imoral, ganancioso, denominado de “Papa Guerreiro”. E um Papa cuja homossexualidade foi denunciada por Erasmo de Rotterdam. Júlio II incrementou a venda de indulgências – venda de perdão – visando financiar a construção da Catedral de São Pedro em Roma. Leão X, que sucedeu a Júlio II em 1513, continuou essa venda de perdão com o mesmo objetivo. Aliás, esse é um lamentável fato que paira sobre a magnífica Catedral de São Pedro. Quando tal venda chegou as regiões da cidade Wittenberg em 1517, aquele monge professor ficou indignado. Martinho Lutero era o nome dele.

Lutero reagiu firme às indulgencias. Devido aos seus estudos do ensino apostólico na Bíblia, ele sabia que a salvação – perdão e paz com Deus – é graciosa, isto é, gratuita, eficaz, plena e imediata. E que a salvação, por ser assim, independe de recursos humanos, ou penitências, pois é inteiramente obra dos méritos suficientes de Cristo na cruz em prol do pecador arrependido.

E no dia 31 de outubro de 1517, Lutero protestou afixando, na porta da Igreja do castelo de Wittenberg, 95 teses contra as indulgências. A tese 27 caracteriza bem o teor do protesto: “Pregam futilidades humanas aqueles que alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.” Essa data se tornou o marco histórico do movimento denominado “Reforma”.

Entretanto, a “Reforma” foi um movimento de dimensões que iam além de Lutero e Alemanha. Na verdade, aconteceram diversos movimentos. Na Suíça, Zuínglio foi o reformador em Zurique, e Calvino foi o reformador em Genebra. Na Inglaterra a “Reforma” misturou interesses políticos e convicções religiosas, mas se firmou como “Reforma” religiosa, criando a Igreja Inglesa Anglicana; Nela nasceram os movimentos Puritanos e Separatistas, os quais deram origem aos Batistas. E em algumas regiões da Alemanha, Suíça e Holanda surgiram os Anabatistas empreendendo uma reforma mais radical. Na França, a reforma dos Huguenotes progrediu bem até que, numa emboscada, eles foram aniquilados no banho de sangue da noite de São Bartolomeu em 1572.

Porém, os diversos clamores por reforma doutrinária da Igreja Romana não foram atendidos, ainda que tenha movido a Igreja Romana a corrigir suas imoralidades. Não atendida, a “Reforma” resultou na separação, surgindo as igrejas baseadas nos princípios da “Reforma”.

Os reformadores foram homens falíveis, e nunca afirmaram o contrário sobre si mesmos. E eles pertenciam a outro tempo cujas marcas se revelam em erros que cometeram. Porém, se dedicaram em redescobrir dentro da Bíblia as verdades básicas da fé cristã que haviam sido perdidas. E nisso foram corajosamente nobres. Por exemplo, Lutero escapou por pouco de ser levado à morte.

A “Reforma” tem sido definida pelos lemas: “Somente as Escrituras. Somente a Fé. Somente a Graça. Somente Cristo. E somente a Deus Glória.” A afirmativa “Somente as Escrituras” definia que a autoridade suprema para as verdades da fé cristã não é a tradição de uma igreja, e nem líderes religiosos, mas primordialmente as Escrituras Sagradas – a Bíblia. Ela contém o que Cristo estabeleceu e os apóstolos propagaram fielmente. Tudo mais é subsequente e subalterno.

E “Somente a Fé e Graça” expressa que, segundo o ensino das Escrituras, nenhum ser humano pode se justificar diante Deus através de seus esforços religiosos e morais, mas sim apenas através do perdão gratuito (graça) dado por Deus para todo arrependido que crê (fé) na morte dadivosa e substitutiva de Cristo na cruz.

De “Somente a graça” decorre “Somente Cristo”. Foi Ele quem realizou essa obra suficiente, eficiente e hábil que cobre toda culpa de qualquer arrependido que clame e creia nos méritos da obra dele. Cristo é o único mediador. E a frase “a Deus glória” reconhece que toda essa obra é exclusivamente fruto do amor e poder de Deus em Cristo, eliminando qualquer participação humana. Toda glória é de Deus que em Cristo justifica graciosamente e plenamente o pecador. Tornam-se desnecessários a penitêcia e, consequentemente, purgatório.

Por causa desses princípios, a “Reforma” acabou causando uma notável transformação social. Ela foi a força formadora da maior parte das nações desenvolvidas e democráticas.

Apenas exemplificando com um aspecto, a “Reforma”, por objetivar propagar as verdades da Bíblia, promoveu a alfabetização geral, o que veio a ser um direito universal. E, tanto a Bíblia de Lutero é a mãe da língua alemã, como a Bíblia do rei Tiago I é a mãe da língua inglesa. São 500 notáveis anos.