A raiva (ira) é possivelmente a emoção mais universalmente expressa pela humanidade. A cultura pode influenciar ou mesmo determinar sua expressão, mas olhe para qualquer lugar do mundo e você a verá. Do silêncio ao assassinato, incluindo o desdém, aborrecimento, impaciência e explosão (só para citar algumas de suas variações), expressamos a raiva com naturalidade.

Respondendo à ira

Nossas respostas à raiva são tão variadas quanto sua expressão. Estamos mais propensos a acalentar, desculpar, alimentar ou defender nossa raiva do que a questioná-la. Mas na sabedoria, questionar nossa raiva é o que devemos fazer. Tiago sabiamente nos adverte que a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tiago 1:20). Se estivermos almejando a justiça de Deus, precisamos repensar a raiva e submetê-la ao escrutínio do Espírito Santo para discernir o caminho que estamos seguindo com nossas respostas. Existem apenas duas opções: um caminho move a nós, nossa situação e as pessoas envolvidas em direção a Deus; o outro procura nos afastar Dele.

Interpretando a ira

A raiva nem sempre é pecado, embora você possa ter ouvido ou acreditado de outra forma. Nós servimos a um Deus que é ao mesmo tempo irado e santo. A ira surge de nossas paixões, quando o que amamos é violado. Isso foi verdade para Jesus. Nós O vemos expressar sua ira contra a hipocrisia dos fariseus e a ganância dos cambistas no templo (Mt 21:12), para com os endurecidos de coração (Marcos 3:5) e para com os orgulhosos. Sua ira foi alimentada por uma paixão santa, dirigida ao pecado ativo, movida pelo anseio de ver a justiça de Deus restaurada e, finalmente, expressa com perfeito autocontrole. Quando nossa raiva é movida de forma semelhante e expressa dentro desses limites, não estamos pecando. No entanto, lamentavelmente, a realidade é que isso é raro.

Olhando abaixo da superfície

Se a ira é justa, é útil, pois nos leva a fazer algo sobre o mal que a alimenta. Nesses momentos, a ira é um instrumento de Deus para efetuar uma mudança em direção a algo mais santo e justo do que as circunstâncias atuais. Se agirmos nesses parâmetros, estaremos expressando uma ira justa de uma maneira justa.

Entretanto, muitas vezes nossas paixões (amores) e desejos se transformam de justos em injustos. Outras vezes amamos algo que não é justo de forma alguma, então nos encontramos lutando em uma batalha espiritual. Nesse momento, precisamos estar dispostos a nos perguntar: “O que a minha ira está defendendo? Meus direitos? Minha honra? Meu controle? Minha conveniência ou conforto? Minha segurança?” Podemos tentar de tudo para “consertar” nosso problema de ira, mas na melhor das hipóteses estaremos “colocando panos quentes” numa ferida infectada e contagiosa. Por isso, é essencial que “escutemos” o que a nossa ira está nos dizendo sobre nossos amores e, então, humildemente ouçamos o que o Senhor deseja que entendamos sobre esses amores. Eles nos enganam. Eles são uma tentativa de encontrar neste mundo o que só é encontrado em Deus. Eles são uma tentativa de construir um reino conforme nosso próprio projeto e no qual nós somos supremos. Só que não somos. Nossa raiva muitas vezes flui da frustração de não podermos ter as coisas do nosso jeito.

Respondendo a Deus em momentos de raiva

Quando apontamos nossas armas para as manifestações pecaminosas de nossa ira, estamos errando o alvo. Em vez disso, devemos seguir as veias que levam à sua raiz, a fim de encontrar as crenças e os desejos que a estão alimentando; é ali que o trabalho deve ser feito.

Efésios 4 oferece uma estrutura completa para entender o processo de mudança na luta contra a ira pecaminosa. 

Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. (…) Assim, eu lhes digo, e no Senhor insisto, que não vivam mais como os gentios, que vivem na futilidade dos seus pensamentos. Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento dos seus corações. (…) Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. (…) “Quando vocês ficarem irados, não pequem”. Apazigüem a sua ira antes que o sol se ponha, e não dêem lugar ao diabo. (…) Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem. Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual vocês foram selados para o dia da redenção. Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo.

Efésios 4:1-32

Paulo exorta seus leitores a deixarem de andar da maneira que eles andaram no passado, imitando os gentios (ímpios), de acordo com a futilidade de suas mentes (v. 17).

Os ímpios são (e os crentes efésios antigamente eram) cegos em seu entendimento e separados de Deus por causa de seus corações duros (v. 18). Todos nós já fomos assim e, como Paulo está escrevendo para seguidores de Cristo e advertindo contra esse pensamento fútil que flui de um coração endurecido, sabemos que todos podemos experimentar isso novamente. Ouça isso! Todos nós podemos experimentar isso novamente. Não importa o que esteja acontecendo ao redor de nós, é nossa obrigação vigiar o que está acontecendo dentro de nós. Agora que estamos em Cristo (v. 20), devemos estar trabalhando, pelo poder do Espírito em nós, para nos despirmos daquele velho homem e nos revestirmos do novo. Isso é realizado pelo trabalho do Espírito de Deus em nosso interior renovando nossas mentes.

Como serão esses novos pensamentos?

– Gratidão por que Deus nos resgatou e podemos viver de maneira diferente;

– Consciência de nosso lugar neste mundo (v. 32): Deus nos perdoou para que possamos nos aproximar de Seu trono de graça e perdoar outros da mesma forma;

– Um desejo de reconhecer humildemente o pecado que ainda existe em nossos corações (v. 31);

– Uma disposição para falar de maneiras que dão vida e que edificam ao invés de destruírem (v. 29);

– Um anseio de viver à luz da salvação, com frutos que refletem a beleza de Deus (v. 32);

– Diligência para resolver conflitos a fim de não dar lugar a Satanás. Isso não significa que todo conflito interpessoal será resolvido rapidamente, mas que os conflitos internos que levam ao pecado (Tiago 4:1) serão.

Pensamento renovado não nos torna perfeitos. A realidade é que continuaremos a fracassar, sendo necessário buscar humildemente o perdão de Deus primeiro e depois dos outros. Até o céu, a santidade completa nos escapa, mas a exortação de Paulo nessa passagem e em muitas outras é um encorajamento para que a mudança possa acontecer. O Filho veio para libertar prisioneiros. Mesmo quando essa liberdade vem gradativamente, a cada nova provação, podemos nos alegrar com a grandeza de Sua provisão para nós.

Perguntas para Reflexão

Em que áreas a raiva, ira ou ressentimento estão lutando pelo domínio do seu coração? Como você está empregando os meios da graça de Deus para lutar nessas áreas? Com quem você está compartilhando a luta contra essa tentação?

Betty-Anne Van Rees serve em sua igreja local no Canadá, na área de discipulado e aconselhamento bíblico, e também participa da Canadian Biblical Counseling Coalition (https://biblicalcounselingcanada.ca/). 

Tradução e adaptação: Alexandre Valotta da Silva

Texto original em inglês disponível em: https://www.biblicalcounselingcoalition.org/2018/12/12/anger-talks-are-you-listening-to-yours/