O biólogo Sir Francis Crick, contemplado duas vezes com o premio Nobel, afirmou: “Nenhum infante ainda não nascido deve ser declarado humano até que passe por certos testes em relação à genética…” E outros, apelando para o jogo semântico, argumentam que, não obstante um bebê no ventre ser um ser humano, ele se torna uma “pessoa” somente após o nascimento, portanto, abortar nunca é errado.

Assim, a vontade da mãe, conforme a conveniência dela, pode legitimamente ter precedência sobre o direito do bebê de viver. Essa posição tem até um dia designado, o dia 28 de setembro – o dia da luta pelo aborto. E o bebê indefeso fica à mercê daqueles que têm poder para lhe tirar a vida. Quem fala por ele? Aliás, quem não foi vitimado por um aborto é que defende o aborto.

Posições pró-aborto, em geral, entendem que a vida humana é resultante de um acidente cósmico-evolutivo. Por isso ela possuiria apenas um valor relativo. O valor da vida humana fica, então, sujeito a uma opinião que se imponha, quer seja de um cientista, ditador, maioria, etc. Entretanto, essa posição relativista abre caminho para absurdos éticos. É o que aconteceu no governo nazista. Além disso, os critérios apresentados para se negar a personalidade do feto são, em tese, aplicáveis também a pessoas que sobrevivem em condições especiais.

Porém, o fato é que a vida humana é uma criação divina e especial – criada a imagem e semelhança de Deus. Ela é dotada, inerentemente, de um valor transcendental e absoluto. Isso torna o aborto uma insensatez e dolo. O aborto por demanda e conveniência fere frontalmente o valor primordial – a suprema sublimidade da vida humana. Toda ética é dependente desse princípio basilar. A visão do ser humano como criação especial é superior e coerente. E propicia encaminhamentos razoáveis para a existência e dramas humanos.

Há uma continuidade na formação do ser humano que torna arbitrário qualquer critério que seccione a vida do bebê em “pessoa” e “não pessoa”. Hoje já se pode captar batidas do coração aos 21 dias de gestação e ondas cerebrais aos 40 dias. Nas falas pró-aborto omite-se a carnificina horrível que envolve a intervenção abortiva. E é injustificável o uso do termo “feto” como um eufemismo para não se dar ao bebê a condição de “pessoa”. Uma mãe nunca se relaciona com o seu “feto”, mas com seu “bebê” – uma pessoa. Quando se acha um prematuro abandonado em algum lugar, a mídia, em geral pró-aborto, alardeia, hipocritamente, o fato como repugnante.

Em nome de defender a saúde da mulher, o discurso pró-aborto ignora que o aborto no hospital é também uma intervenção grave para a mulher. E ignora os prolongados desacertos psicológicos decorrentes do aborto. Sobre o possível dilema de uma mãe correr risco de morte por causa da gravidez, Dr. Everett Koop, cirurgião e ex-ministro da saúde dos EUA, testificou que nunca encontrou essa situação em 38 anos de trabalho. Porém, se houver tal dilema – mãe versus bebê – isso se resolve afirmando, e não negando, o valor supremo da vida humana.

Estabelecido o absoluto do valor primordial da vida humana, quando duas vidas realmente se chocam em termos de sobrevivência, se aplica a hierarquia entre dois absolutos. Então, se surgir esse dilema, a vida precedente, a da mãe, tem prioridade sobre a vida consequente, a do bebê. É a avaliação de vida por vida, e não a da vida de um contra e abaixo da conveniência do outro.

Se uma gravidez por estupro é um drama terrível, o aborto como escape desse drama é um equívoco. Ele agrava o drama. Um aborto não elimina, mas perpetua o drama da mãe. Diante do que é factual, a mãe é consciente que, se uma parte do bebê vem do estuprador, a outra parte vem dela. E mais, é ponto pacífico a verdade que o bebê gerado em nada é culpado pelo crime do estupro. Punir o bebê é injusto.

E mais, sendo os humanos seres espirituais, não há aborto que apague que existiu um bebê, ainda que no ventre. Bebês abortados “fazem aniversários” na memória de suas mães. E serão recordados como existências e potenciais destruídos. Enquanto a gravidez é processo temporário, o trauma na consciência, devido a um aborto, é permanente e dolorido. Por envolver uma vida e um ser espiritualmente permanente, a consciência de ter abortado é mais aflitiva do que enfrentar a missão temporária de uma gestação indesejada.

Não havendo estrutura emocional para criar o bebê, entregá-lo para adoção é caminho superior. Para a mãe biológica, será muito mais reconfortante saber que o bebê foi recebido com alegria e carinho por uma mãe e um pai. A opção da adoção, por preservar a vida humana, será uma realidade moral e emocional de melhor convivência, na consciência e memória da mãe biológica, do que o aborto. Aborto por demanda é injustificável, trágico e a pior alternativa. A opção pela vida é sempre melhor.