Em fevereiro de 2012, depois de entrar noite adentro farreando intensamente no requintado bar, a renomada cantora Whitney Houston se retirou e subiu para seu luxuoso quarto no famoso hotel Beverly Hilton. No quarto, entregou-se a um coquetel de drogas e álcool, e de madrugada foi encontrada morta dentro da banheira. Whitney Houston tinha muita felicidade a sua disposição, mas lhe faltava alegria.

A atual ausência de reflexão aprofundada causa a ausência de discernimento quanto às duas experiências da felicidade e alegria. Consequentemente, em geral se assume que as duas se referem a mesma coisa, criando uma visão superficial da vida e um entendimento pífio sobre o existir. 

Os pensadores gregos muito debateram o conceito de felicidade (makarios).  O assunto e reflexão têm sua complexidade, mas, para uma elucidação atual é suficiente o entendimento que, para os gregos, felicidade era a liberdade das preocupações normais da vida, condição gozada por aquele que encontrava a chamada boa sorte: dinheiro, saúde, filhos, etc. Nos nossos dias felicidade é aquilo que se tem ou pode desfrutar sensorialmente que, com as devidas variações, passa por dinheiro, poder, viagens, festas, lazer, esportes, status, sexo, realidade artificial da droga/álcool, etc.

Mas os gregos também falavam em alegria (chairo). Era descrita como a “culminação do ser” ou “bom humor da alma”. Entendiam eles, que “chairo”, ou alegria, era encontrada somente em Deus e podia ser partilhada ao ser humano através da virtude e sabedoria. É relevante notar que “chairo” não era primordialmente o oposto de tristeza, mas do medo, ou seja, sem o medo, dominava a alegria. 

No Novo Testamento, escrito no grego antigo, o termo “makarios”, ou felicidade,  foi apropriado e interpretado dentro da visão bíblico-cristã. Foi usado para apontar uma condição privilegiada que alguém desfrute, mas como sendo uma dádiva divina. Então, na visão bíblico-cristã, a felicidade desejável, aceitável e edificante é aquela que não viola a alegria cristã. E a alegria cristã é independente da felicidade. Mas, mesmo na visão bíblico-cristã, o termo mantém a referencia a uma dada condição em que venha a se encontrar o individuo. 

Portanto, a felicidade é essencialmente externa, e a alegria é interna. A felicidade é circunstancial, e alegria está além e acima da circunstancia. A felicidade é fugaz, a alegria é estável.  A felicidade é física-sensorial, a alegria é espiritual-transcendente. A felicidade se refere na condição temporal, a alegria se refere à paz, esperança e eternidade. A felicidade depende das coisas e pessoas, a alegria depende do relacionamento com Deus. 

Vivemos num mundo onde vender a felicidade é o grande negócio, inclusive na esfera religiosa de fachada cristã – o mercado da fé da prosperidade. Aliás, na religião atual a busca é pela felicidade, ou seja, por aquilo que se consiga de Deus, e não pela alegria do encontro e desfrutar do Deus eterno. O prazer não está primeiramente em Deus, mas no que se pode conseguir de Deus. A verdade é que, o ser humano atual, cada vez mais longe de Deus, agrava seu vazio, sendo um freguês insaciável do mercado da felicidade que domina a publicidade e mídia. Entretanto, o grande equívoco é que a felicidade é vendida como alegria, isto é, a mercadoria é diferente do pacote dela. E o equívoco se completa porque os fregueses estão carentes de alegria em suas almas, mas pensam que necessitam felicidade. São semelhantes ao sedento no deserto que, ao ver uma miragem de um oásis, acaba bebendo areia, e assim agrava mais sua sede, o que pode produzir mais miragens e mais areia. Whitney Houston poderia descrever bem essa saga. E esse equivoco pode ter uma presença muito enganosa, como ponderou C. S. Lewis em seu livro “Surpreendido pela Alegria”: “Eu as vezes reflito se todos os prazeres não são substitutos da alegria.”

A alegria é consequência de se viver na presença de Deus. A alegria chega apenas quando no mais íntimo da pessoa, onde reside a essência e a verdade da pessoa, âmbito chamado as vezes de alma e as vezes de coração, habitar a paz com Deus e a esperança eterna em Deus. Por isso, no meio de desafios, depois de se acertarem com Deus, séculos antes de Cristo, o povo ouviu de Neemias, o reconstrutor dos muros de Jerusalém:  “… a alegria do Senhor é a vossa força.” (Bíblia, Ne 8:10)  

A paz com Deus, portanto a alegria, é possível apenas em Cristo, mediante a cruz, fonte e meio de perdão gracioso. Falando da alegria divina que vem através dele, Cristo afirmou aos seus discípulos: “…ninguém lhes tirará a alegria.” (Bíblia, Jo 16:22) O cansaço da felicidade mundana será ultrapassado somente quando, entoando o título na versão em Português,  se cantar com Bach: “Jesus, a alegria dos homens”. Ou, Jesus, permanece sendo a minha alegria.