Gilbert K. Chesterton apontou que o problema do homem que não crê em Deus, não é que ele para de crer, mas sim que esse homem passa a crer em qualquer coisa. Moisés subiu ao monte Sinai para receber a Lei de Deus. Mas, como Moisés demorou retornar, o povo israelita decidiu construir um bezerro de ouro. Ao regressar, Moisés encontrou o povo cultuando tal bezerro. O fato é que, ou o ser humano cultua a Deus, ou ele se devota a algum bezerro que lhe pareça reluzente. Toda pessoa tem um altar – um altar primordial. E nele o ser humano oferece sua maior devoção – sua vida. A questão não é se alguém tem ou não esse altar. A questão é o que está nesse altar – Deus ou um bezerro de ouro?

O ser humano não consegue viver sem algo que dê significado ao seu ser e existência. Ele precisa de algo que lhe provoque uma antecipação de realização e satisfação. A vida se torna vazia e insuportável sem esse valor. O altar não pode ficar vazio. Mas nessa necessidade inevitável, contida ou exteriorizada, um erro é comumente cometido. Algo que é menor que a vida passa a responder a alma que anseia pelo que é maior que a vida… e morte. O ser humano transveste de Deus aquilo que não é Deus. Da sua profunda experiência com essa questão, Blaise Pascal alertou que o abismo do vazio interior “pode ser preenchido apenas por um objeto infinito e imutável, em outras palavras, por Deus.”

Jacques Ellul, professor de Sociologia e História na Universidade de Bordeaux, falecido em 1994, apontou corretamente que a idolatria “não tem desaparecido, mas longe disso… há os deuses secretos que assediam e seduzem muito eficazmente porque eles não declaram abertamente serem deuses…” Essa sedução sempre acontece. Se Deus não ocupar o altar, algo mais irá tomar esse lugar. O apóstolo Paulo disse que os seres humanos “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem…” (Romanos 1:22-23)

Sem Deus, surgem diversos bezerros. Se para alguns é um objeto religioso, para muitos são alternativas seculares. Para o adolescente, dominado pela mídia e moda, o ocupante do altar é geralmente um artista ou esportista. Para o adulto pode ser o dinheiro. Para o devoto da ciência, o ocupante do altar é ela própria. Outros endeusam uma causa, como a ecologia. As opções de deuses se multiplicam em formas tais como poder, profissão, status, romance, família, esporte, sexo, drogas, etc. Eis a questão – Qual é o bezerro no altar supremo?

Na esfera da religião o erro do bezerro é um velho conhecido. O mandamento milenar proíbe categoricamente a construção de qualquer imagem ligada ao culto – “Não farás para ti… nenhuma imagem…” (Êxodo 20:4) É oportuno observar que Deus não deixou nenhuma informação sobre a aparência de Cristo. Se houvesse essa informação, absurdos idolatras iconográficos aconteceriam. O coração humano é rápido e sutil na arte de transferir a divindade para o objeto que possa manipular ou possuir. E os objetos passam a se amoldar as suas expectativas e projeções.

É relevante notar que a narrativa informa que “O povo, ao ver que Moisés demorava a descer do monte, juntou-se ao redor de Arão e disse… faça para nós deuses que nos conduzam, pois a esse Moisés… não sabemos o que lhe aconteceu.” (Êxodo 32:1) A demora foi crucial para o erro. Moisés foi o guia que Deus escolheu para conduzir o povo. Ainda que Moisés fosse o homem de Deus para aquela tarefa, Moisés não era Deus, mas um homem. No entanto, sem a presença visível de Moisés, o povo descartou Deus. Devido a visão equivocada que tinha de Deus, vinculando-a ao homem Moisés, o povo acabou na miséria de cultuar um bezerro. Eles queriam Deus numa manifestação sob o controle de seus sentidos.

Seria um deus condicionado a percepção, manipulação, concepção ou expectativa deles. O ser humano erra ao transferir o seu anseio pelo divino para algo da sua projeção e expectativa, e termina nas mãos daquilo que é imanente e menor que a vida, seja algo religioso ou secular – um bezerro.

O antídoto para esse erro é ter uma compreensão nítida de quem Deus é – Deus transcendente ao universo humano. É aquele único que pode satisfazer o anseio profundo da alma. É preciso uma visão de Deus que torne irrelevante e desnecessário qualquer bezerro. A filósofa Simone Weil esclarece que “…o homem não precisa buscar, ou, nem mesmo crer em Deus. Ele tem apenas que recusar crer em tudo o que não é Deus. Essa recusa não pressupõe a crença. É suficiente o homem reconhecer, o óbvio para qualquer mente, que todos os bens deste mundo, passado, presente, ou futuro, real ou imaginário, são finitos e limitados e radicalmente incapazes de satisfazer o desejo que queima perpetuamente dentro de nós por um bem infinito e perfeito… O homem tem apenas que persistir em sua recusa, e um dia ou outro Deus virá a Ele.” É preciso descartar os bezerros.

Cristo irrompe na história proclamando que, nele, Deus veio para todo ser humano. Pela fé, em arrependimento, o ego e suas idolatrias são crucificados com Cristo e o encontro com Deus acontece – o Deus suficiente. E no poder do Cristo ressurreto nasce uma nova vida com Deus e para Deus. “…Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo…” (II Coríntios 5:19) E um novo canto e satisfação chegam a vida.