Quando o imperador Julio Cesar introduziu o novo calendário anual em 45 ac, ele dedicou o primeiro mês ao deus “Jano,” daí o nome “Janeiro” no atual calendário do Ocidente.  Jano era o deus da saída e da entrada, do término e do começo, do passado e do futuro. Por isso ele tinha duas faces, uma olhando para trás e a outra para frente.

Realmente janeiro é um momento tipo “Jano”. Ao virar mais um ano o ser humano se torna parecido com o deus Jano. Se de um lado se olha o que vai e não volta, do outro lado busca-se ansiosamente olhar o que vem. Porém, ao procurar olhar o que vem, olha-se nada. Não se pode enxergar nada. O novo ano pertence ao futuro. E o futuro não pertence ao ser humano. Quanto a isso, todos os esforços em nada podem ajudar.

O ser humano sofre da síndrome de Jano. As pessoas querem ver seu futuro. Querem ser o deus de seu futuro. Por isso todas as formas de adivinhações, ainda que sempre enganosas, fazem sucesso. Elas dão uma sensação de controle do futuro, inclusive induzindo muitas vezes, posteriormente, a falsa impressão que controlou e deu certo. O ser humano resiste ao fato que o futuro esta fora do alcance do seu olhar. O fato é que o novo ano é uma incógnita para a perspectiva humana.

O tempo e o ser humano são duas criações de Deus. A existência humana acontece no tempo e o tempo revela a finitude humana. A verdade do tempo aponta para a necessidade de Deus na existência humana. O ser humano foi criado para viver para e com  Deus, ou seja, em dependência absoluta. O desejo de controlar o futuro revela o desencontro humano com a sua realidade e com Deus. As pessoas não reconhecem a incógnita do futuro porque isso implica em submissão a Deus. O ser humano quer ser autônomo diante de Deus quanto a moral e tempo.

Viver sem nenhuma certeza, no modo existencialista, é angustiante, pois isso é estranho ao espírito. Mas o futuro não é um absurdo. Há uma certeza diante do futuro. E ela é única. A certeza singular é que Deus tem o controle do futuro. Qualquer outra certeza é ilusória, produzida por uma tola arrogância. Somente a humilde dependência de Deus dá sentido a existência dentro da dimensão do tempo, então, diante do novo ano. Essa dependência liberta da insensatez da arrogância e do absurdo da incerteza do futuro. E liberta da alegre tolice do pensamento positivo – “pense afirmativamente e tudo vai dar certo”. O novo ano deve ser recebido com humilde gratidão e total dependência de Deus. O resto é loucura.

Tiago, o escritor bíblico, adverte aqueles que arrogantemente dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócio e ganharemos dinheiro.”(Tg 4:13) A isso Tiago acrescenta: “Vocês não sabem o que lhes acontecerá amanhã!” E então ele aponta para a realidade: “Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.” Finalmente, Tiago conclui com a postura sábia, ensinando que o ser humano deve sempre dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.” (Tg 4:15)

Planejar é responsabilidade humana diante do Criador, porém, confundir planejamento com controle é equivoco grave. O novo ano pede planejamento, mas com humildade. O ano novo é uma categoria desconhecida que deve ser recebido em total dependência de Deus. Mas de um Deus essencialmente bom na perspectiva eterna, conforme o revelado em Cristo. Somente assim o ser humano encontra descanso diante da ansiedade do futuro.

O desassossego do ser humano com o futuro é na verdade mais uma vertente da luta humana com Deus. É fruto do desejo humano de querer ser autônomo diante de Deus, o que muitas vezes é feito de modo sútil. O ser humano quer ser um deus, um Jano. Por essa atitude, e suas decorrentes, é que o ser humano está rompido com Deus, vivendo angustiado. E Cristo veio para sofrer a culpa e pena humana na morte de cruz.

Cristo tomou sobre Ele toda a arrogância e rebeldia, afrontando à soberania de Deus, ou seja, o pecado, inclusive a recusa de ser dependente quanto ao futuro.  Por Ele há perdão e reconciliação com Deus, e então paz com a ordem da realidade dentro do tempo. O ser humano foi criado por Deus e para Deus. Fugir desse habitat de dependência é desestruturar a existência dentro do tempo. O entrar do ano novo é oportunidade propícia para encontrar descanso na dependência de Deus, mediado por Cristo. Aos que o encontram, Cristo libera: “Não se preocupem com o amanhã…” (Mt 6:34)