Em que sentido o ano será novo? Os gregos antigos podem ajudar na resposta. Enquanto no Português há apenas uma palavra para “novo”, os gregos definiam melhor o conceito de “novo”. Eles tinham duas concepções distintas para “novo”: “neós” e “kainós”.

A primeira palavra, “neós” denota um “novo” em relação ao tempo. Por exemplo, se alguém fizer hoje uma vassoura, ela é nova no tempo, mas não é nova enquanto ideia ou natureza. A segunda palavra, “kainós”, refere-se ao “novo” essencialmente inusitado enquanto ideia e natureza. Por exemplo, quando surgiu o primeiro telefone, ele foi um “kainós”, pois era um tipo inédito de comunicação. Era um objeto novo quanto a ideia e natureza.

O novo ano pode ser “neós” ou ”kainós”. Se o “novo” ano for vivido na proposta comum à mentalidade dominante, ele será apenas um ano “neós”. Será um novo ano somente em relação ao tempo – um novo conjunto de 365 dias a ser vivido na mesma forma de sempre. O ano “neós” é repetição da velha vida longe de Deus, com as mesmas ilusões mundanas. Será secularista, tendo em vista apenas a dimensão do aqui e agora. Será marcado pelo vazio, significado efêmero, egocentrismo, vícios, conflitos familiares, materialismo, hedonismo e ganâncias.

Porém, há a possibilidade de se viver um ano “kainós”. Um novo em essência, e não apenas no calendário. Essa novidade “kainós” é holística, isto é, abrange a pessoa no seu todo, por dentro e por fora. A experiência “kainós” se origina na dimensão intimista da pessoa. O “kainós” se dá na esfera espiritual do indivíduo.

A Palavra de Deus, a Bíblia, aponta como é possível essa novidade radical, ou, o “kainós”. O ensino apostólico, que no texto original em grego usa o termo “kainós” para novo, afirma: “…se alguém está em Cristo é nova (kainós) criatura: as coisas velhas já passaram, eis que se fizeram novas (kainós).” (II Co 5:17). Somente em Cristo há “kainós”. Nele há um antes e um depois, radicalmente distintos.

Há muitas formas do ser humano fazer algumas reformas paliativas no seu ser, mas há apenas uma forma dele se tornar essencialmente novo. Isso requer o encontro com Deus na mediação de Cristo. O apóstolo Paulo experimentou essa virada radical e a descreveu assim: “Já estou crucificado com Cristo, logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim…” (Gl 2:20). Jesus Cristo descreveu essa experiência como “nascer de novo” através dele (João 3:1-21).

Essa transformação é possível somente mediante a morte substitutiva de Cristo na Cruz. Nela Cristo tomou sobre ele a culpa do ser humano, culpa essa totalmente irreparável se não for a morte substitutiva de Cristo. Quando o indivíduo reconhece a velhice do seu viver, moldado fora da vontade de Deus, e em arrependimento confessa essa condição, reconhecendo sua necessidade da morte de Cristo em seu lugar, através da fé o indivíduo morre com Cristo. Isto é, morre para a vida vivida para si mesmo e mundo. Ele morre para a vida fora da dimensão eterna de Deus. Morre para o secularismo.

Confessando assim a Cristo, a pessoa chega ao perdão pleno e absoluto na provisão de Cristo. Porém, isso requer a quebra do orgulho e autossuficiência, marcas comuns de todo ser humano. É preciso a pessoa chegar ao fim de sua ilusão e prepotência, inclusive religiosa. É preciso reconhecer, desesperadamente, a necessidade da graça – favor imerecido – de Deus em Cristo. E isso é comumente repelido pela caída natureza humana. A autossuficiência prevalece, mesmo nas religiões.

Entretanto, aquele que experimenta o arrependimento e perdão, abrigando-se pela fé na obra vicária de Cristo, renasce no poder do Cristo ressurreto, passando a viver com e para Deus. Isso é uma novidade sobrenatural, e não humana. Esse renascer é uma regeneração, no poder de Deus em Cristo, que possibilita uma vida essencialmente nova. A pessoa passa a ser marcada por um antes e um depois.

Se antes, o indivíduo confiava em seus próprios méritos religiosos e morais, como ensinam as religiões criadas pelo ser humano, agora ele vive humildemente na dependência da graça e direção de Deus em Cristo. Se antes o indivíduo vivia para sua própria vontade, ou para amoldar-se à vontade do mundo, agora, renascido, desfruta do viver na vontade de Deus em Cristo. Se antes, no secularismo, o sentido da vida era fugaz e vazio, agora a existência tem o significado eterno de viver, em tudo que faz, para Deus em Cristo. Se antes habitava o desacerto e culpa no íntimo, agora a vida é de paz eterna com Deus em Cristo. Tudo muda resultando em novidade radical – É o “kainós” de Deus em Cristo.