O mundo atual é o da aparência.  Mais precisamente, é o mundo da aparência física. É o mundo das grifes, cosméticos, academia, tratamentos estéticos e cirurgias plásticas. Ávida por lucros do consumismo através da audiência, a mídia ocupa-se em atiçar a vaidade, promovendo modelos da aparência. Esses modelos, virtuais ou produzidos, são uma imagem ilusória e inalcançável na vida real. E muito mais inalcançável é a satisfação que eles prometem entregar. O jogo é manter a audiência escravizada.

Esse mundo dominado pela aparência física tem focado primeiramente nas mulheres, criando uma situação extremamente cruel na qual elas são medidas por aquilo que não é normal. Elas jamais vão se tornar o modelo produzido e plástico apresentado na mídia, e serão sempre escravas frustradas dessa busca impossível.  Essa agonia feminina começa cedo. Há até bonecas que as transformam, já na infância, em seres insatisfeitos. E assim serão sempre frustradas e presas da indústria da estética. E fazem o mesmo papel os ícones que manipulam as crianças na TV.

Os homens também já sentem o mesmo calor dessa pressão da aparência. Um exemplo é a versão da metrossexualidade. É a nova imagem que cresce nos ícones masculinos, cheia de aparatos e vaidades, inclusive no viril mundo do esporte. Noutra opção, o “macho man” resiste firme a metrossexualidade, perseguindo sua versão da aparência vaidosa na forma do “fortinho” torneado. Enfim, há alternativas de vaidade para todos os gostos.

Há algo de errado em se reconhecer ou aprimorar a beleza estética? Certamente que não. Mas é preciso um equilíbrio. O problema advém do fato que o mundo atual centraliza a aparência e também promove o irreal. O mundo fez da aparência a medida de tudo e transformou a aparência em referencial do ser. Esse erro leva o ser humano a viver para a ilusão. Nele o ser humano se consome pelo que é fútil e impossível.  E vive frustrado e infeliz. Acima de tudo, nesse endeusamento da aparência, acontece a perda do que é mais valioso – a beleza do espírito.

A beleza do estado espiritual, ligada a condição interior, independe dos dotes da aparência física.  O estado espiritual é dependente da condição intima em relação a Deus. Na Bíblia, o povo de Israel foi confrontado com essa questão da aparência. Isso se deu quando seu rei, o bem afeiçoado Saul, se tornou reprovável e devia ser destituído. O profeta Samuel advertiu: “Não considere a sua aparência nem a sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.” (I Sm 16:7) Na cultura hebraica, a qual pertence esse texto bíblico, “coração” representava não sentimentos, mas o centro do ser humano. Então, é nesse “coração” que se encontra a beleza e a saúde espiritual que são contadas diante de Deus. E é isso o que conta para a existência e relacionamentos humanos.

O estado espiritual da pessoa é a essência dela, e não a aparência física. É esse estado interior que identifica quem a pessoa é, e então, com quem se está vivendo e interagindo. E, dependendo da condição espiritual, haverá uma vivência edificadora ou uma vivência desastrosa, tanto para o individuo como para quem o cerca.  Por exemplo, a convivência conjugal saudável não vem de um pouco mais de creme e nem de alguns músculos torneados, mas dos valores dos cônjuges que determinam as atitudes e comportamentos deles. É por isso que Deus olha o “coração”. A questão é a quem ou a que a pessoa teme, adora e cultua em primeiro lugar no centro do seu ser. E esse cultuar e adorar ditará os valores. E, assim, o culto do “coração” conduz a um dado tipo de conduta e comportamento. “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.” (Bíblia, Pv 4:23)

A diferença acontece quando alguém tem um “coração” que deseja conhecer, e chega a conhecer, esse Deus que o conhece. Esse “coração”, que conhece a Deus, passa a temer e adorar a Deus sobre todas as coisas. E assim, nessa nova pessoa, habitam valores e comportamentos que edificam. Aí é que se acha a beleza que conta. É a beleza eterna que transforma o agora. E é a beleza que faz toda diferença numa abrangência holística, por isso, é bem distinta da banal e superficial da vaidade da aparência.

Há esperança para o coração vazio entregue ao culto da vaidade. É possível a conversão. Isso acontece através da cruz de Cristo na qual toda miséria do “coração” é derrotada e perdoada graciosamente, inclusive a escravidão e adoração do pecado da vaidade. Deus em Cristo perdoa e liberta. E produz um novo “coração” entregue a Ele, com propósitos eternos e valores sublimes. Um coração com a beleza que realmente conta, e conta eternamente.