Na estória “Moby Dick”, Ahab, o capitão do navio Melville, prega uma moeda de ouro no mastro principal diante da tripulação. O capitão está obcecado em caçar a grande baleia branca “Moby Dick”. A valiosa moeda é uma recompensa para o marinheiro que primeiro avistar a tal baleia.  Todos os marinheiros passam a desejar a moeda intensamente, mas não da mesma forma.

A reação do rapaz Pip, ajudante de cabine, revela o que está se passando nos marinheiros enquanto olham para a moeda: “Eu a vejo, você a vê, todos nós a vemos”. Todos olham a mesma moeda, mas os olhares são diferentes. Alguns a veem de modo elevado, como um troféu que reconheceria quem é o mais hábil entre eles. Outros a olham de forma supérflua, pensando em quantos maços de cigarro ela poderia comprar. Semelhantemente, todos olham a vida, mas a olham de formas diferentes conforme os valores assumidos.

A maioria vê a vida como algo secular.  “Secular” vem do Latim “saeculum”, com algumas variações de significado, mas sendo o principal a referência a “um dado tempo”. Até o século XIX esse termo distinguia a esfera e jurisdição temporal-civil, em contraposição à esfera religiosa-eclesiástica. Entende-se que G.H. Holyoake, nos fins do século XIX, foi o primeiro a usar “secular” como uma proposta de vida. É a proposta atual. A mensagem no ar, especialmente nas artes e mídia, é que o ser humano tem apenas este “saeculum”, ou seja, este “tempo”. É a mensagem do “secularismo”.

Não obstante as pessoas professarem uma religião não “secularista”, como por exemplo a Cristã, na prática a maior a parte das pessoas é “secularista”. Vivem a vida para simplesmente desfrutar ao máximo o “aqui e agora”. Descartam a dimensão eterna. Os “secularistas” podem até pensar em termos de um depois, mas apenas como alguns meses ou anos à frente, ou seja, é somente um “aqui e agora” mais estendido.

 Ainda que G.H.Holyoake possa ter inovado, “secularismo” enquanto proposta de vida é antigo. Já no primeiro século desta era, o apóstolo Paulo citou uma frase da comédia Thais, de cerca de dois séculos antes, do escritor grego Menander: “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (I Coríntios 15:32). É com esse lema que as pessoas vivem e escolhem atualmente, guiando assim sua busca do entretenimento, sexo, trabalho, dinheiro e relacionamentos.

Como essa visão aguçou-se a motivação para mais prazeres sem limites. Secularismo, sem um valor transcendente, tem um enorme impacto moral e existencial. As pessoas pesam as consequências de suas escolhas, se pesam, numa dimensão imediatista e parcial. Sem a eternidade, surge uma destrutiva moral imediatista, relativista e casuísta. E o propósito de vida fica reduzido ao fugaz “agora”. Assim, imperando um vazio oriundo do transitório, domina uma fatigante e insaciável busca da realização pelo prazer.

 Nada poderia estar mais longe do ensino e obra de Jesus Cristo do que o secularismo. A Bíblia ensina o caminho eterno. O “aqui e agora” é uma oportunidade única a ser experimentada e valorizada, mas nunca separada do eterno. O “aqui e agora” bem vivido é vivido à luz da eternidade.  No Evangelho, todos os momentos têm um significado transcendente ao presente.

Há um modo correto de viver o momentâneo à luz da eternidade. É oportuno o alerta do sábio e experiente rei Salomão: “Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude!” Mas então ele complementa: “…a juventude e o vigor são passageiros. Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis…” (Eclesiastes 11:9 a 12:1).

O apóstolo João resume assim a perspectiva do Evangelho: “O mundo (o secular) e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre. ” (I João 2:17) A crucificação de Cristo proporciona o perdão que possibilita um encontro e um viver com e para Deus, o eterno. É o viver que desfruta intensamente de cada momento, mas numa intensidade além da efemeridade. É um viver em que o momentâneo é conectado e iluminado pelo eterno.