Era um anel muito interessante e atrativo. Ele concedia grande poder a quem o usava. Por isso o nome do anel era “Anel do Poder”. Esse anel, criado por Sauron, o Senhor das Trevas, é a figura central da trama do livro “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien.

O problema era que o anel de Sauron, além de outorgar poder ao seu portador, ele também corrompia. Ninguém resistia a influência maléfica do anel, mesmo quem fosse movido por boas intenções.  A corrupção acontecia porque o anel amplificava o desejo do seu portador. Algumas pessoas usaram o anel com boas intenções, como libertar escravos, proteger territórios dos inimigos e lutar por justiça diante de malfeitores. Porém, o anel ampliava a boa intenção até elevá-la a estatura de um ídolo do coração.

Quando essa elevação idólatra acontecia, até as pessoas bem-intencionadas se tornavam dispostas a fazer qualquer coisa para atingir os alvos de seus desejos. Ainda que houvesse inicialmente uma intenção legítima, a pessoa virava um monstro que abandonava qualquer lealdade ou valor.  A consequência é que o portador do anel deixava de ser quem possuía o anel para passar a ser possuído pelo anel. O portador do anel se tornava dependente dele – um escravo de um ídolo.

O que é um ídolo? Como no caso desse anel, ídolo é algo sem qual a pessoa não consegue viver. E, consequentemente, ídolo é aquilo que passa a consumir e dominar a vida da pessoa. Então, obcecada por esse ídolo, a pessoa compromete, sutilmente ou declaradamente, os valores mais fundamentais. Ela causa danos a si mesma e a outros. Como no livro “Senhor dos Anéis”, um dado ídolo tem a força de um vício espiritual de repercussões terríveis.

Sutis ou declarados, ídolos podem ser tanto religiosos, como seculares e mundanos.  Ídolos podem ser pessoas, riqueza, objetos, causas, prazeres e paixões. Então, também podem ser concretos ou abstratos. Alguns são socialmente bem aceitos e populares, e outros são repugnantes. Alguns ídolos são pervertidos, mas outros são entidades nobres, mas que se degeneram em corruptores quando alguém as adota como ídolos.  Os idólatras podem ser simplórios e rudes, como também podem ser refinados na sua idolatria.

Na atualidade, os ídolos se multiplicam, mas a atitude e resultados são sempre os mesmos – escravidão, frustração, vazio, distorção e destruição. A cultura atual, especialmente através da mídia, promove a vida na idolatria. No lado secular está o ídolo do sexo, dinheiro, droga, festa, esporte, paixão, fama, prazer, carreira, ícones artísticos e esportivos, assim como causas cívicas e ecológicas. No lado religioso o ídolo vem em muitas formas de objetos, estátuas, espiritualidade e esoterismo.

Um viajante do passado, ao chegar a Atenas da antiguidade, ficou chocado ao ver a quantidade de ídolos na cidade. Logo ele reagiu argumentando em público. Então os atenienses decidiram levá-lo para uma avaliação no tribunal cultural deles denominado de Areópago. Lá o viajante tomou a palavra e apresentou com desenvoltura o seu arrazoado. Quem visita o Areópago atualmente, junto a Acrópole de Atenas, irá se deparar com esse discurso gravado na rocha em grandes letras. Nesse discurso o viajante declarou: “Vejo que… vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei um altar com a inscrição: Ao Deus desconhecido.”

Os atenienses não tinham falta de ídolos. Mas, viviam a verdade inevitável que, mesmo se for possível se ter todos os ídolos, sempre haverá a falta de mais algum. Nenhum ídolo satisfaz finalmente. Acaba sempre permanecendo a necessidade do “Deus pleno”, mas desconhecido. Aquele viajante, o apóstolo Paulo, continuou o arrazoado: “Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio – O Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor dos céus e da terra…” (Atos 17:16-23, Bíblia) Ele anunciava aquele que, por transcender a todos os ídolos, liberta dos ídolos e dirige o intimo humano para a real satisfação e edificação de si e dos outros. É o Deus eterno que responde ao anseio íntimo e molda adequadamente a vida e valores.

Ídolos escravizam, distorcem e prejudicam porque são enganosos. Eles são a tentativa de colocar no lugar de Deus, o eterno, aquilo que é efêmero e essencialmente imanente. O coração humano anseia por se entregar ao eterno.  Mas, a busca desse romance se perde facilmente com a sedução do ídolo, que vem, domina e ilude. E o coração humano, escravizado por essa paixão idólatra, se consome na frustração e vazio do se devotar ao efêmero, mundano e finito. O único amante que pode realmente responder ao anseio do coração é Deus – o eterno.

Justamente para proteger o coração humano do engodo dos ídolos, o primeiro mandamento adverte expressamente: “Eu Sou o Senhor teu Deus… não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo…” (Êxodo 20:2-4) Em Cristo Deus oferece seu amor eterno ao carente coração humano. É o caminho de rompimento com o engodo do ídolo para o encontro com aquele que realmente preenche a necessidade humana. Cristo afirmou: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho… para que todo o que nele crê… tenha a vida eterna.” (João 3:16) Disso é que o ser humano é carente – a vida e o amor eterno. Somente isso pode realmente atender o anseio da alma. E isso nenhum ídolo pode dar.