Meses atrás em São Paulo, entendendo a questão, ou sendo manipulados, alunos menores de idade se manifestaram contra certas políticas educacionais. Em protesto ocuparam escolas, interromperam aulas, expulsaram educadores, passando noite e dia acampados nas escolas.

Eram grupos de crianças, fora de casa, por dias, sozinhos em escolas. Eram meninos e meninas entregues a si mesmos, se amontoando em salas, inclusive à noite. Crianças que têm essa autonomia revelam que não têm autoridade sobre elas em suas casas. Aliás, se era o caso de mobilização, isso pertencia aos pais, e numa forma ordenada. E essas ações de alunos revelam que educadores também perderam a autoridade sobre alunos e sobre a própria escola.

Essa falta de autoridade denota que impera o princípio da ausência de princípios. Uma das consequências e sinal desse novo tempo é a alarmante estatística de alunos que agridem educadores. A situação provocou a espantosa medida de se instalar mediadores nas escolas.

Essa condição atual do lar e escola é apenas uma faceta de uma sociedade toda que não conhece mais a instituição “autoridade”. É comum infratores, maiores e menores, não respeitar nem polícia e nem judiciário. Políticos desprezam a lei. É uma sociedade que tendo os princípios do “tudo pode” e “proíbam nada”, não tem mais parâmetros morais que estabeleçam o que é destrutivo e o que é construtivo. E então, fica impedida de estabelecer autoridades que zelem responsavelmente por esses parâmetros. Princípios e autoridade andam juntos.

É preciso apontar que é filosófico o embasamento que levou a esse abandono dos princípios norteadores e do conceito de autoridade. Isso afetou a sociedade toda. Mas, refletindo a problemática a partir da escola, é preciso apontar o surgimento da propalada pedagogia de Paulo Freire, particularmente apresentada em seu livro “Pedagogia do Oprimido”.

Feita a interpretação das interações sociais pela ótica do novo-marxismo, sempre com o bordão dos “oprimidos”, ensinar no modo tradicional virou uma opressão. O professor imbuído de autoridade moral e pedagógica é um opressor do aluno. Então, o professor é esvaziado tanto como autoridade na conduta do ensino como autoridade do conhecimento a transmitir. E aí o construtivismo soma propondo o conhecimento a partir do aluno. O reforço para esse quadro vem do pós-modernismo de M. Foucault que descredencia princípios e autoridades ao reduzir tudo a um jogo de poder a ser descartado.

Assim, desvestido da autoridade, inclusive no conhecimento, o professor é reduzido a um mero facilitador. Em muito a escola se torna o lugar onde ninguém ensina. Enfim, uma escola alinhada com uma sociedade sem autoridade. É escola de uma sociedade caótica. É necessário resguardar que, resgatar a escola com princípios e autoridade, não deve ser confundido com uma educação sem espaço para criatividade e reflexão.

Williard Gaylin, professor de psiquiatria no Columbia College de Physicians e Surgeons, em seu livro “Perversion of Autonomy” (Perversão da Autonomia), dissecando a condição da sociedade norte-americana, revela o que acontece também no Brasil: “Os americanos abraçaram tão firmemente a liberdade, que podem ver somente um aspecto dela, o aspecto da autonomia.” Ou seja, há um profundo desconhecimento e confusão sobre o que é liberdade. A dimensão social que exige limites e autoridade sobre os indivíduos foi confundida com ausência de liberdade.

Ao se fazer um bolo, há duas possibilidades. Uma é usar uma fôrma, a outra é não usar fôrma. É desnecessário se descrever o que acontece com a massa se a fôrma for dispensada. Se vai haver um bolo belo e delicioso, tem que se aceitar a fôrma. A massa tem que se conformar aos limites recomendáveis. Se o conceito de parâmetros delimitadores for considerado uma opressão, não haverá bolo e sobrará um forno em caos.

A vida humana é criativa. Deus assim fez o ser humano, mesmo porque Deus é criativo. Mas há parâmetros. Enquanto dentro dos parâmetros, a criatividade edifica. É a fôrma. E há pleno espaço para o exercitar da capacidade criativa dentro dos parâmetros. Entretanto, se os parâmetros forem ultrapassados, vem o caos e destruição.

A atitude social para com a sabedoria antiga, bem como a opção social atual, é pontuada por Richard Sennett, sociólogo e historiador da London School of Economics e do Massachusetts Institute of Technology. Em seu livro “Autoridade”, ele aponta: “Chegamos a temer a influência da autoridade como uma ameaça à nossa liberdade, na família e na sociedade… hoje vemos um temor da autoridade, quando ela existe.” Autoridade está descartada.

Certamente há autoridades opressivas e exploradoras. Mas essas autoridades são ilegítimas por não se pautarem pelos parâmetros edificadores e irem além do mandato delas. Essas autoridades devem ser removidas, mas não deve ser removida a necessidade e figura da “autoridade”, e nem os parâmetros, ou princípios, que as orientam e justificam.

O livro de Provérbios (Bíblia) afirma: “Onde não há revelação divina, o povo se corrompe; mas como é bem-aventurado quem obedece a lei!” (Pv 29:18) Deus, o criador do ser humano, estabeleceu e revelou os parâmetros, ou a lei. Eles são caminho de edificação, ou bem-aventurança. Eles são saúde e proteção. E é necessário estabelecer autoridade para zelar por esses princípios. Cristo media o retorno do indivíduo, família e sociedade, para a forma de viver do Criador, conduzindo aos parâmetros sábios, vencendo o caos e destruição.