Sabrina Sato afirmou recentemente que “Carnaval não tem que ter pudor.” É impossível discordar dela. Carnaval com pudor não é Carnaval. Quanto mais falta de pudor, mais real e fiel é o Carnaval à sua natureza e missão. Carnaval com pudor é chocho e sem graça. Se o Brasil vai honrar sua festa maior, o Carnaval, precisa ser celebrado efusivamente sem pudor.

Sabrina interpreta precisamente o Carnaval. Há duas razões que sustentam o que ela disse. Primeiramente, a Sabrina entende de Carnaval. Figura já carimbada de outros carnavais, Sabrina vai estar à frente das baterias de grandes escolas de samba no Rio e em São Paulo, além de ser rainha do baile “Glam Gay” – um ícone do despudor. Total inversão.

E a segunda razão é que ela é coerente. Se há pudor, não há carnaval. O antropólogo Roberto da Matta expõe a essência do Carnaval analisando o hino oficial da festa: “Mamãe Eu Quero Mamar”. Nessa música, aparentemente infantil, está embutido de forma subversiva a sem-vergonhice, invertendo e abusando dos valores numa devassa sexual. O que é nobre acaba no lixo. E nada como o despudor sexual, encarnado pela Sabrina, e central no Carnaval, para demonstrar a repudia da moral. Sendo o sexo o fundamento da humanidade, o despudor dele tem um impacto universal – na pessoa e sociedade. Sabrina precisa ser aplaudida por ser coerente quanto a natureza do Carnaval. O Brasil também precisa ter mais dessa coerência.

E ainda, parabéns a Sabrina porque ela não embarca na falácia em voga de querer transformar o Carnaval numa festa de valores e edificação. Falácia essa do risível absurdo de, no meio do despudor por excelência, quererem fazer a defesa de causas morais. É incoerentemente patético uma agremiação carnavalesca desejar, por exemplo, protestar contra a corrupção. Carnavalesco moralista é do tipo “me engana que gosto”.

É patética a falta de coerência da sociedade brasileira que adora o Carnaval. Ela tem como maior celebração o despudor, exaltando a imoralidade, então, a desordem. Porém, depois ela protesta que o despudor se manifesta em todos cantos da sociedade, bem como na maior parte dos cidadãos. A milenar sabedoria, na Palavra de Deus, já advertia: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá.” (Gl 6:7) Se o Brasil quer o Carnaval, precisa fazer as pazes com a colheita dele.

O Brasil se vende para o turismo do primeiro mundo como país carnavalesco. Os turistas, que em geral vivem onde não predomina a proposta do Carnaval, vem ao Brasil para a balburdia de quatro dias. Mas depois retornam para a realidade mais moralmente ordeira e construtiva da sociedade deles. Quatro dias de devassa é interessante somente na casa dos outros. Os turistas não querem isso o ano todo na casa deles – Tchau Brasil!

É crucial notar que uma celebração, como é o Carnaval, não é o problema em si. Uma celebração é sobre algo além dela. Uma festa matrimonial celebra o casamento, mas não é o casamento. Celebrar o despudor no Carnaval é apenas apontar que o despudor é aceito como modo de vida. E, então, é algo que acaba moldando a forma de viver. A celebração momentânea reflete o cotidiano. Por isso, no Carnaval não se coloca mascara, mas sim se tira a máscara. Num outro modo, o colocar uma máscara do Carnaval revela o tipo enrustido que predomina na cultura – uma sociedade de mascarados. Atrás dos discursos e fachadas moralistas está a podridão.

Uma sociedade que faz do despudor sua maior celebração não pode esperar ser cheia de pudor na sua vida. E é crucial frisar que sem pudor, ou princípios morais, não existe organização e edificação. Sobra a esculhambação. Não surpreende, então, ao se observar que há um grande e constante Carnaval na nação. Carnaval na política, Congresso, economia, tributação, segurança, saúde, educação, transações, transito e mídia. E, mais lamentável ainda, a família está virando um Carnaval. A Palavra de Deus adverte: Na vida pode se escolher o que se planta, mas não o que colhe. Ao se escolher o que planta também já se escolhe forçosamente o que colherá. Os dois são inseparáveis. Carnaval é despudor. O Brasil quer Carnaval. Mas, “de Deus não se zomba.”