Nações e culturas têm seus festivais. Entre esses festivais há, em geral, um festival maior, seja pelo delongar da celebração ou pela abrangência dela. O festival mais dominador, expressivo e celebrado, por um povo, lança luz sobre que valores dominam esse povo. O festival mor explica em muito porque um povo e sua nação vieram a ser o que são.

A Alemanha tem seus festivais de entretenimento, como o Oktoberfest e Karneval. Esses festivais não são feriados nacionais e a abrangência deles é regional. E nenhum deles tem a conotação de libertinagem e lascívia sexual. Esses festivais são menores na Alemanha. O festival mais abrangente e marcante da cultura alemã é o Natal, aliás, uma celebração em família. É um marco da cultura alemã. Não se pode ignorar os pressupostos do Natal na formatação da Alemanha. 

Os Estados Unidos tem seus festivais nacionais e regionais menores. A abrangência e ênfase no Natal têm destaque marcante, entretanto, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day) ultrapassa a celebração do Natal nos EUA. É o histórico dia para gratidão especial diante de Deus. E é uma celebração primeiramente em família. “Thanksgiving Day” é um sinalizador basilar dos pressupostos que formataram a cultura e valores norte-americanos.

Festivais, especialmente os de maior celebração, têm origem em fatos e seus pressupostos éticos. Esses pressupostos formatam cultura e seus valores. E a cultura e valores, por sua vez, delineiam a história, comportamento e realizações das nações. É verdade que muito cidadãos não aderem aos valores dominantes representados no festival maior de suas nações. E muitos aderem parcialmente.
Mas o que conta são os pressupostos, e valores decorrentes, que foram dominantes na formatação do ideário de uma nação. O festival maior revela em muito esses pressupostos e valores formatadores.

Povos podem continuar celebrando seus festivais maiores enquanto abandonam os pressupostos que deram início a esses festivais. Mas o impacto desses pressupostos pode continuar a moldar por tempos o que nações e povos são e constroem, como se fossem uma inercia cultural. Porém, gradualmente os valores se enfraquecem por falta da sustentação dos pressupostos abandonados. E eventualmente os valores são perdidos e as consequências se sucedem. Tudo indica que assim está se processando nas nações acima mencionadas.

Ainda que sendo um país de identidade Católica Romana, nenhum festival católico romano ocupa o primeiro lugar no ideário e celebração brasileira. Nem mesmo uma celebração universal da cristandade, como a do Natal, tem primazia na cultura brasileira. Sem sombra de dúvidas o maior festival do Brasil é o Carnaval. Há outros povos que celebram o Carnaval, mas não na dimensão do Brasil. O “Guinness Book” estabelece que o Carnaval carioca é o maior do mundo. E muitos carnavais, como acontece na Alemanha, são pequenos e não tem a ênfase da libertinagem e lascívia sexual.

Passadas as celebrações do Carnaval, ficará um impacto imediato na cultura brasileira. Há perguntas que revelam as consequências desse impacto. Por exemplo, perguntar, se depois do Carnaval, a seriedade e dignidade do voto matrimonial estará mais forte na cultura? Os matrimônios estarão mais honrados e firmes? As famílias estarão mais solidas e saudáveis? Os pais estarão mais comprometidos com a educação moral dos filhos? O cidadão brasileiro estará mais convicto da honestidade? Estará mais comprometido com a verdade? Mais avesso à corrupção? O respeito ao próximo estará mais fortalecido? Os seres humanos passarão a se ver menos como mero objeto sexual? A força das drogas e álcool terão perdido a força? A sociedade será mais responsável e construtiva?

É difícil responder afirmando que após o Carnaval as virtudes estarão fortalecidas na cultura brasileira. Talvez alguém diria que o Carnaval é inconsequente do ponto vista da moral e virtude porque é um mero entretenimento. Essa visão neutra do Carnaval não sobrevive a analise realista e informada. Mas, mesmo que esse fosse o caso, seria lamentável que a maior celebração do Brasil fosse irrelevante e vazia, em nada contribuindo para a cultura nacional.

Por priorizar o entretenimento e descontração, um popular filósofo da atualidade afirmou que o Brasil “pensa com o ventre” e não com a razão. Quando se faz a opção por uma proposta de vida, como essa do “pensar com o ventre”, se faz também opção pelas consequências dela. Se quiser mudar as consequências, é preciso mudar a proposta optada. O Carnaval confirma essa tese da opção nacional pelo “pensar com o ventre”.  Se o Brasil quiser mudar, terá que pensar diferente e com outros pressupostos éticos-espirituais. É necessário reformatar o ideário.