Escolas de samba têm desenvolvido projetos sociais. Alguns de seus enredos têm abordado questões éticas. Essas novas tendências parecem fazer do carnaval um festival comprometido com a dignidade, bem como com a edificação do individuo e sociedade.

 

Há também o enaltecer do carnaval como riqueza artística. Sem dúvida há muita criatividade no carnaval. Entretanto, arte precisa qualificação. Ela não é neutra. Arte é mensagem e valores. É preciso questionar a arte. Mesmo a arte excepcionalmente criativa sempre será, ou moralmente destrutiva, ou construtiva. Neutra não é.

 

A origem histórica mais plausível do carnaval é que ele vem da celebração do deus grego Dionísio, correspondente do romano Baco – o deus da devassidão. No Brasil essa celebração se casou com a dança e a música originária da Angola e do Congo. Abordando essa mistura carnavalesca, Gilberto Freyre escreveu que é nela que a “mulata se enaltece”. No entanto, no contexto da obra, a expressão aponta um elevar da “mulata”, mas um elevar nas categorias de Baco. Em “O Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro descreve a “anomia”, ou ausência de princípios, que se instalou na sociedade por instituições como o “carnaval”.

 

O antropólogo brasileiro, professor da PUCRJ e Universidade de Notre Dame nos EUA, Roberto DaMatta, afirma que a “música do carnaval é… um gênero musical que… tem relação direta com a sedução, com uma gesticulação concertada e coerente que objetiva um encontro erótico generalizado…”  DaMatta analisa a “clássica” modinha carnavalesca “Mamãe Eu Quero”. Ela é uma inversão de valores, na qual o desejar “o peito da mãe” sugere “uma série de associações pornográficas ou eróticas… o resultado… é que todos cantam… e simbolicamente se transformam em filhos ambíguos e malandros… e o nome da mãe sofre uma impulsão profana… Mas é precisamente com isso que se faz o carnaval.”

 

O domínio erótico e de inversão moral é constatado numa observação rápida dos bailes e dos desfiles. Já aconteceu de um presidente do Brasil ser fotografado no carnaval ao lado de uma jovem com a genitália à mostra. Milhares de turistas chegam ao Brasil atraídos principalmente pelo paraíso sexual do carnaval. É enorme o gasto público com a distribuição de milhões de preservativos. O aumento da despesa pública no tratamento das doenças sexuais, pós-carnaval, é, certamente, um fato. Junto com esse sexo indigno, no carnaval, há o intenso e destruidor consumo do álcool e drogas.

 

Além do que as pessoas praticam nos dias do carnaval, depois dele, elas partem para a vida à frente com uma ética bem mais enfraquecida. Isso resulta numa existência marcada por graves erros, com conseqüências terríveis para o futuro delas e o da sociedade. A fibra moral enfraquece. É natural que contraventores e “escolas” se deem bem.

 

A essência do carnaval não é família, edificação, ordem e moral.  Se o fosse, perderia todo atrativo. Por isso, é contraditório, por exemplo, uma escola de samba, que existe em função de um festival inerentemente devasso, querer também ser vista como resgatadora da criança desamparada através de uma obra social. Um ato correto, isolado, não compensa um todo movido por práticas e propósito imorais.

 

Se o que se quer, é o carnaval, então, celebre-se o carnaval, consciente do que se celebra. Iniciativas éticas-sociais no ambiente carnavalesco constituem-se num grande equívoco e em um tolo “acalma consciência”. Ser honesto é, ver o carnaval como carnaval.