A Policia Federal foi buscar na palavras de Jesus Cristo o nome para sua operação em frigoríficos com produtos irregulares. A operação foi chamada de “Carne Fraca”, mas o que a polícia encontrou foi “carne podre”. Entretanto, no final das contas, segundo Cristo, há uma conexão entre as duas “carnes”. Ao falar que a “carne é fraca”, Jesus Cristo faz uma colocação  iluminadora sobre o ser humano. É uma visão distinta das alternativas comumente argumentadas pelos pensadores.

Rousseau, sec. XVIII, entendeu que o ser humano é naturalmente bom, sendo corrompido pela civilização. Na proposta dele de governo na forma de um “Contrato Social”, Rousseau cria que esse “contrato” preservaria ao máximo a liberdade do ser humano para que ele pudesse ser quem ele é, resgatando a original bondade perdida. Enfim, para Rousseau, o ser humano é naturalmente bom.

Hobbes, sec. XVII, afirmava que o ser humano é naturalmente marcado pelo desejo de poder, sempre focando na sua preservação pessoal. Ou seja, é um ser egocêntrico. Segundo Hobbes, esse desejo de poder move os seres humanos a se contratarem como nação. Mas para isso funcionar, o povo precisa ceder todo poder aos governantes. Essa administração poderosa governamental necessária, Hobbes denomina de “Leviatã”, o nome do monstro marinho da mitologia antiga. Enfim, o ser humano não é virtuoso, ou seja, não é essencialmente bom.

Ao falar que a “carne é fraca”, Jesus Cristo revela que os entendimentos de Hobbes e Rousseau estão equivocados, tanto no diagnóstico do mal humano como na redenção necessária. No meio da noite, Jesus Cristo estava no Jardim de Getsêmani, prestes a ser preso, agonizando sobre sua morte que viria em poucas horas. Então, ele ora. E convida seus discípulos Pedro, Tiago e João para se ajuntarem a ele numa vigília de oração. Cristo se afasta deles para orar sozinho, mas, quando retorna, encontra os três dormindo.

Observando a indolência espiritual de seus companheiros, Jesus Cristo alerta: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mt 26:41) Horas depois Pedro iria mentir, negando categoricamente que conhecia a Cristo. Seria a falha da “carne” prevalecendo sobre o “espírito”. Nessas palavras, Jesus Cristo aponta que o ser humano conhece o bem, e pode até realiza-lo em boa medida, mas Cristo também aponta que o ser humano tende a ser fraco demais para fazer o bem, ou seguir o “espírito”.

Há variados significados para os termos “espírito” e “carne” no Novo Testamento. Nas palavras de Cristo, “espírito” não se refere ao “Espírito Santo” e nem ao “espírito” que compõe o todo do ser humano. O termo se refere ao conhecimento humano sabedor que há uma vontade de Deus, o caminho da virtude. E sabedor que o ser humano deveria seguir essa vontade. E, o termo “carne” não se refere ao  físico dos animais, ou o corpo, mesmo porque “carne” e “corpo” são termos distintos também na língua original de escrita do Evangelho, o Grego. Nessas palavras de Cristo, “carne” se refere a inclinação comum ao ser humano, oposta ao “espírito”, de agir diferente da vontade de Deus, escolhendo o que não é virtuoso.

Diferente do que em geral se pensa, o corpo humano, ou o físico, não é nem bom e nem mau. “Carne”, nesse contexto do Evangelho, é também uma dimensão não física, semelhante ao “espírito”. “Carne” é inclinação e desejo. O mal nunca é ou está no físico, pois é espiritual. O físico é apenas um instrumento que pode ser usado para o bem ou o mal, dependendo de qual das duas inclinações opostas venha a prevalecer – “carne” ou “espírito”.

O fato é que a Policia Federal não encontrou “carne fraca” nos frigoríficos. “Carne fraca” não se encontra nos produtos pecuários. A polícia encontrou “carne podre”. Porém, esse crime de vender “carne podre” aponta para a existência da “carne fraca”. Aliás, essa “carne podre” nos frigoríficos é mais uma constatação de como o ser humano é suscetível a fraqueza de sua “carne”. Jesus Cristo faz a leitura correta do ser humano.

Entretanto, o ser humano não precisa ficar à mercê das muitas e variadas putrefações causadas pela “carne fraca”, seja no indivíduo ou sociedade. No mesmo contexto Jesus orientou: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação”. Voltando seu viver para Deus, através de Cristo, o ser humano encontra nele recurso para viver conforme o “espírito”, ou a vontade de Deus, andando na virtude. Cristo é o caminho para a vida virtuosa. Através da cruz, ele abriu essa possibilidade. É possível formar um novo indivíduo, e então formar uma nova cultura nacional, vitoriosa sobre a fraqueza da carne, e assim livre da sua podridão decorrente. Sem putrefações, a vida é mais justa e agradável para todos.