Antes de começar a partida de futebol, decide-se que time dará o pontapé inicial através do método “cara ou coroa” de uma moeda jogada pelo juiz. Entende-se que esse é um modo justo porque ninguém sabe o lado da moeda que ficará para cima no chão. E o comum é interpretar isso como “acaso”, ou, “chance”.

Indo do futebol para o paradigma científico atual, se encontrará igualmente o uso do termo “chance” relacionados às gêneses, ou, origens. E aí está um dos maiores equívocos atuais. Ele se dá pela utilização de “chance” sem questionamento. E se dá principalmente devido a intimidação do enorme porrete silenciador denominado ciência. Os dois usos citados, futebol e ciência, ilustram bem o uso e o abuso do termo chance. Futebol usa, e ciência abusa.

Chance como probabilidade é uso legitimo do termo por se referir ao cálculo matemático sobre a viabilidade de algo advir. Por exemplo, a possibilidade de chover. E chance como acontecimento inesperado, dentro da existência em curso, também é um uso adequado para o termo, referindo-se a ações que causam algo não intencionado pelos agentes envolvidos. Por exemplo, dois conhecidos se deparam na praça sem terem combinado tal encontro.

Nesses dois casos, chance se refere a acontecimentos envolvendo agentes e recursos existentes. E que assim criam, ou concretizam, um dado fato. Quando o juiz joga a moeda para cima, para decidir qual time dará o pontapé inicial, é exatamente isso que se dá – chance. O resultado da moeda jogada poderia ser analisado matematicamente em termos de probabilidade através do considerar o peso da moeda, força empregada, distância do chão, etc. Também, numa outra aplicação, o juiz jogar a moeda é chance porque ele não intenciona que caia para cima um dado lado da moeda, e nem tem a capacidade, no momento, de controlar o resultado.

A existência do universo, vida e ser humano levanta necessariamente a questão das origens. Existência impõe o questionar. Particularmente, há três questionamentos fundamentais: 1) Como tudo começou? 2) Como a matéria bruta, ou, inorgânica, se tornou viva, ou, orgânica? 3) Como surgiu o ser humano, com muito em comum com o mundo animal, mas distinto pelo componente espiritual – moralidade, criatividade, consciência, eternidade, propósito? Esses são três abismos ainda a serem cientificamente ultrapassados.

Para se desnudar a problemática comumente ignorada, do uso de “chance”, basta considerar a primeira questão: Como tudo começou? Depois de teorias minunciosamente e inteligentemente elaboradas, fica faltando o como tudo veio a ser. E a resposta comum é “chance”, ou, ao acaso. O grande equívoco é deixar passar, sem questionamento, a mudança de significado do termo “chance” quando aplicado a origem primeira do universo.

Chance, ou acaso, não é uma entidade existente por si mesma, criadora e transcendente à existência. Quando nada havia, não havia chance. Ela é contingente à realidade já existente. Na mitologia hindu e chinesa há mitos que falam sobre a terra estar descansando, ou ser sustentada, sobre uma tartaruga. E com essa explicação se encerrava os questionamentos. A tartaruga era o travesseiro consolador para se descansar diante da agonia de não haver uma explicação para uma questão fundamental.

Chance é a tartaruga do paradigma científico atual. Tanto o aluno em classe, como o telespectador diante da televisão, escuta: A ciência informa que houve uma explosão que deu início ao universo. E aí, com essa colocação, se encerra o questionamento. Ninguém pergunta o que existia para explodir. E, se havia algo a explodir, de onde veio. Tem surgido diferentes e divergentes tentativas de ultrapassar “origem”. O cientista Levy-Leblond tentou redefinir tempo para colocar o big bang num tempo infinito no passado. Stephen Hawking insistiu num big bang de um nada atemporal. Outros, usando o “princípio de incerteza” de Heisenberg, falando de uma pré-existente substância sem princípios. São apenas novas “tartarugas” diferenciadas entre si.

No lugar de chance, a honestidade exigiria se dizer que, as fórmulas e teorias levam o conhecimento até tal ponto, e depois dele, se desconhece o acontecido. O filosofo que se preocupou em refletir sobre causa e efeito, o reconhecido David Hume, no sec. XVIII, afirmou: “Chance é apenas a ignorância da causa real.”

E avançando um pouco mais, ultrapassando a ignorância da “chance”, cabe admitir que, até que se prove e explique algo diferente, a forma do raciocínio humano e a realidade existente têm suas inevitáveis demandas. O raciocínio e a realidade exigem uma origem a partir de um agente criador, e um agente que seja transcendente aos elementos básicos e pertinentes à realidade criada: energia, tempo e espaço. Como S. Hawking admitiu, a verdade é que “há claras implicações religiosas seja qual for seu início de discussão sobre as origens do universo”.  Já cantava o salmista: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra de suas mãos.” (Bíblia, Sl 19:1)