Entre as dores e confusões que o ser humano criou para si mesmo na atualidade, estão os experimentos na vida matrimonial. Uma abordagem comum define matrimonio por relacionamento de “compatibilidade”. As pessoas se casam por serem compatíveis e descasam por serem incompatíveis. E, nos diferentes dramas, é comum o de um cônjuge mudar de posição. Quando casou afirmava que ele e seu cônjuge eram compatíveis. E depois declara que não são compatíveis.

Nestes tempos do narcisismo e egocentrismo exacerbados, não poderia faltar a proposta “pragmática”. Casamento é um meio para entregar um produto que o cônjuge deseja. O produto é a felicidade do indivíduo. Um cônjuge olha para o outro como um instrumento para sua felicidade pessoal. Essa é a razão para casar e para pular fora do casamento. Obviamente que, nesse modelo pragmático, a felicidade é definida pelo interessado. Por isso é possível que a felicidade almejada seja também alterada no decorrer do matrimonio. E assim o matrimonio que servia antes, pode não servir mais.

Também não poderia faltar, no mundo individualista de hoje, a proposta da “competitividade”. O maior contribuidor para essa proposta matrimonial é o feminismo atual, marcadamente neomarxista, bem distinto do feminismo original. Nele toda estrutura social é definida como opressão de minorias. O homem é opressor e mulher é oprimida. Surge a guerra dos sexos. E assim impera a competição por espaço e independência. E a versão mais radical chega a militar pela extinção da instituição matrimonial.

Com essas abordagens, introduzidas pelo ser humano, o matrimonio não tem futuro. E apenas frustra e fere. “Compatibilidade” é um mito. Ninguém é “compatível” na dimensão que se dá ao termo. É verdade que algumas pessoas têm mais pontos em comum para começar, mas ninguém é plenamente compatível. O ser humano é pecador. Ele tem acertos em muitos aspectos, mas sempre imperfeito. Casamento é saber viver e tratar a imperfeição humana – dos dois.

E a proposta da tal “felicidade” do “pragmatismo” trucida a possibilidade matrimonial. Primeiramente, o pragmatismo é uma meta pequena. Mesmo quando o matrimonio é desafiador, se houver a resolução de prevalecer enquanto casal, o desafio será superado. É preciso ir além da conveniência de resultado, especialmente de curto prazo, para se viver um projeto de longo prazo, ou, a sólida construção a dois – a verdadeira felicidade.

E, em segundo lugar, o matrimonio, quando sujeito a felicidade, especialmente a pequena felicidade do egocentrismo e variações de um cônjuge, acabará sempre sendo uma infelicidade. Felicidade não é cócega superficial, mas se construir com lutas e incômodos um projeto sólido e perseverante. A punhalada mais comum dessa tal “felicidade” pragmática é o surgir de uma terceira pessoa para tudo destruir.

Quanto a proposta da “competitividade”, ela é a morte do ideal milenar do matrimonio. Seja lá quais sejam, na história e culturas, os modelos reprováveis de comportamento masculino em relação à mulher, empurrar os dois para o contraditório projeto de relacionamento-guerra, é receita para a derrota conjugal.  Portanto, “competitividade” não é a solução, mas um empecilho para a esperança de se construir um matrimonio.

Há teorias especulativas antropológicas que afirmam que o matrimonio é invenção humana, mas elas carecem de embasamento histórico. O natural é o ser humano ver o matrimonio com parte integrante de sua constituição humana. E isso é coerente com informação bíblica que o matrimonio, longe de ser uma invenção humana, é uma ideia e iniciativa de Deus desde o princípio da criação do ser humano. E o modelo de Deus para o casamento é de “complementaridade” – “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e corresponda” (Genesis 2:18). E conclui dizendo sobre o casal: “eles se tornarão uma só carne.” (Gn 2:24).

Na criação, os dois seres são igualmente dignos pela “imagem” comum: “à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou.” (Gn 1:27) E os dois, ainda que igualmente humanos, são marcadamente distintos –  homem e mulher – numa somatória inigualável dentro do universo. Não dois do mesmo, mas a real diversidade – homem e mulher – encontrando a unidade no matrimonio.  E um trazendo para a vida do outro o que outro não possui e nem pode possuir, como sexo oposto e como individualidade. É preciso apreciar a diversidade.

Reconhecer a necessidade do outro para completar a si, e se ver como aquele que completa seu cônjuge, é o modelo do matrimonio. Entre acertos e erros, tempos mais felizes e outros mais desafiadores, perseguindo a complementaridade, o projeto matrimonial e familiar vai prevalecendo e moldando ambos. E quanto mais eles prevalecem, a experiência se aprofunda e solidifica. E assim a felicidade real, não a ilusória do imediatismo e aventuras, mas daquilo que permanece, é colhida por aqueles que perseguem a complementaridade.