Uma afirmação comum da atualidade: “É preciso se crer em algo.” E há também a versão mais avançada: “Cada um escolhe crer na verdade que quiser.” Essas afirmações são símbolos fortes da superficialidade e liquidez do crer, bem como do conceito de verdade.

O pensamento da Modernidade surgiu na Idade Medieval sonhando com a possibilidade de o ser humano, com o uso apenas de sua razão, poder estabelecer todas as verdades exigidas pela sua existência. Nessa proposta entendeu-se que Deus, revelado na fé cristã, era dispensável. A proposta Moderna entendia que ela responderia também as questões da moral e significado da vida, bem como o caminho de redenção do ser humano a partir dele mesmo.

Esse intento voou alto nos séculos XVII e XVIII com um racionalismo exacerbado. Entretanto, chegando-se à esgotada Modernidade tardia, no século passado, concluiu-se que a razão não seria capaz de entregar a verdade desejada para as questões humanas. Porém, frustrada a expectativa desse racionalismo, não se voltou ao uso da razão na dependência do transcendente – Deus e revelação. Preferiu-se abandonar a certeza do conhecimento e verdade, e então, da fé.

O enorme desastre disso incluiu a negação da verdade objetiva, caindo-se na plena subjetividade, contrariando nisso a essência da verdade. Verdade passou a ser o que cada um desejar. O resultado é que moral, e significado da vida, ficaram desancorados. Consequentemente se tornaram relativos. E assim passou a imperar o individualismo, ou, “a verdade que me interessa” e o relativismo, ou, “cada um tem a sua verdade”.

O ser humano passou a buscar direção moral e significado de vida, e então, a religião, através de um tatear nas trevas, orientando-se por suas conveniências, ou, a partir de si. Assim, na atualidade, não havendo verdade objetiva, todas religiões têm sido apresentadas como iguais. E da mesma forma se vê as diversas e divergentes propostas de moral e significado. O pensador inglês G. K. Chesterton colocou bem: “Quando se deixa de acreditar em Deus (Cristão), passa-se a acreditar em qualquer coisa.”

Hoje religião é procurada do mesmo modo que se escolhe produtos no shopping center. E até “igreja cristã” é escolhida através da preferência pessoal, como se faz com loja e marca. O critério da verdade é ignorado. O ser humano virou um “consumidor” da fé. Lamentavelmente, embarcando nesse marketing religioso, desprovido do arrazoado crítico, grande parte das denominadas “igrejas” cristãs são movidas pelo “consumismo da fé”, visando números.

A visão da igualdade das divergentes religiões, que exige o sacrificar da “verdade”, é atrativa para o ideal da boa vizinhança. Bem como para dar conforto a alma que não quer refletir criticamente. Porém, considerando a natureza da verdade do que essa visão de religião, ainda que a convivência pacífica das religiões seja um ideal nobre que deve ser mantido, suspender o exame crítico das distintas propostas de fé-religião é revelar desconhecimento e superficialidade. Mantida a civilidade na convivência religiosa, a análise e debate sobre a verdade da fé é inevitável e necessária.

Ao contrário do que em geral se pensa, as religiões, como Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Espiritismo e Cristianismo, podem parecer iguais na superfície, mas são fundamentalmente diferentes. Todas podem falar, por exemplo, em paz e amor. Mas elas não estão falando a mesma coisa. E muito menos falando em cima da mesma base e justificativa. Elas são essencialmente discordantes nos seus pressupostos.

A natureza exclusiva da verdade impõe a crítica avaliadora. O dito e o contradito não podem ser verdades ao mesmo tempo. Ou é um, ou é o outro. A razão e conhecimento operam com esse princípio da não contradição. Encontrar a verdade exige que esse princípio seja respeitado. Mas isso não significa voltar ao insuficiente racionalismo da Modernidade. A razão sozinha não pode conhecer a verdade plenamente.

A verdade da fé, moral e significado de vida, são coerentemente conhecidos por um exame da razão, mas na dependência do que Deus tem revelado nas Escrituras Sagradas. É o uso humilde da razão, sempre dependente da revelação de Deus, rejeitando o racionalismo, ou, a autonomia da razão.

Jesus Cristo – Deus conosco – afirmou sobre ele mesmo: “Eu sou a verdade”. (João 14:6) O artigo definido “a” estabelece a objetividade. Isto é, ou Ele, e somente Ele, é “a verdade”, ou Ele é falso e totalmente equivocado. Mas, sendo a verdade, Cristo responde todas as questões do espírito humano. Porém, sendo a verdade, Cristo não é mais um no mercado religioso. Relevante é algo mais que Ele afirmou: “Na minha Palavra… Conhecereis a verdade e ela os libertará.” (Bíblia, João 8:32)