O filósofo racionalista do século XVII, René Descartes, afirmou: “Penso, logo existo.” O cidadão ocidental da atualidade afirma: “Consumo, logo existo.” O indivíduo comum não vocaliza “Consumo, logo existo”. Ele não é consciente desse fato. Mas a mente, vida e prática dele estampam essa máxima do consumismo. Tristemente, o indivíduo foi formatado pelo consumismo e não é consciente do fato.

Afirmando a verdade como algo pragmático e relativista, e não objetivo e transcendental, a Pós-Modernidade conduz a pessoa a ser uma presa de uma vida que se explica pelo “comprar”, algo muito pragmático. Assim permanece na Pós-Modernidade o pragmatismo de “mercado”, e consumismo, tal qual na Modernidade. Na Pós-Modernidade continua presente o entendimento que aquilo que funciona, “dá resultado”, deve ser recebido como um bem. Se produzir e consumir dá resultado, então é um bem, por isso deve ser estimulado. E “mercado” funciona economicamente, e também é funcional ao atender os anseios do indivíduo. Porém, transpondo o âmbito sadio da praticidade e necessidade real, “mercado” ganhou equivocadas dimensões espirituais, surgindo o “consumismo”.

Diante do domínio do pragmatismo do mercado e marketing, a visão de existência do momento é gratificação através do materialismo e consumismo. E mais, o atual clamor pelo direito à liberdade individual sem limites, muito afeito à Pós-Modernidade, passa pela liberdade do indivíduo, sem limites, comprar o que quer e quando quer. Desse modo a vida se move no buscar significado e autorrealização pelo consumir. A Pós-Modernidade critíca a Modernidade por afirmar “metanarrativas” – significado e explicações abrangentes da existência humana pelo organizá-la à volta de um enredo e valor supremo. Porém, o “mercado-consumismo” se tornaram uma metanarrativa na Pós-Modernidade.

Se as Igrejas eram os edifícios centrais das cidades no mundo ocidental, apontando que a vida e comunidade eram regidas por valores transcendentes e espirituais, as Igrejas já perderam esse lugar. A referência atual da cidade e vida é o “Shopping Center”. Ele é a nova catedral. E, então, os valores, e fonte de satisfação de vida, também mudaram. No shopping center o ser humano se rende e presta culto ao materialismo através do consumismo. Nele o ser humano quer encontrar paz e significado. James Rouse, um arquiteto que projetou mais de sessenta shoppings, ousou dizer que “é no espaço de compras que todas as pessoas se reúnem… É espaço democrático, unificador… que dá espirito e personalidade à cidade.”

Como sempre acontece quando os ser humano cria, ou adota, ídolos para substituir Deus, o ídolo do consumismo acaba detonando o ser humano. No seu livro “Mentes Consumistas”, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva descreve como o consumismo se torna uma compulsão que domina o indivíduo. Alguns se tornam viciados trágicos, mas a maioria é composta de dependentes moderados o suficiente para camuflarem o fato que são dominados pelo consumismo.

Uma das forças que move o cérebro é a busca do prazer, informa a Dra. Beatriz. O prazer sentido vem da liberação da dopamina nos neurotransmissores do cérebro através de um ato ou sensação. E quando um dado prazer passa a ser central para a pessoa, é preciso cada vez mais liberação da dopamina para atingi-lo. Surge então a dependência do ato que dá tal prazer. E o consumismo faz isso com a pessoa. E a Dra. Beatriz informa que isso está afetando profundamente inclusive as crianças, além dos adultos. Até o ambiente escolar é uma fomentação do consumismo, diz ela. E mais, o consumismo integra o pacote que inclui a depressão.

O produzir e marketing, que teria a função legitima de atender necessidades do indivíduo, passa a ter dimensões equivocadamente espirituais. O consumismo se move com o marketing que promete satisfazer espiritualmente o ser humano com os produtos promovidos e oferecidos – promete satisfação e autorrealização materialista. Mas, para o mercado se manter é preciso que essa satisfação, promovida pelo marketing, seja sempre adiada para mais um produto novo, ou para uma versão mais atualizada dele. A realização prometida nunca se cumpre para que o consumismo seja sustentado. E não se cumpre porque consumismo não pode dar satisfação.

O ser humano se transforma numa presa de uma metanarrativa maléfica – é a narrativa da explicação da existência, e seu significado, através do comprar/consumir isso e aquilo, esperando chegar a autorrealização. A utopia dessa satisfação materialista, sempre por vir, é permanentemente perseguida e sempre postergada. Existir fica reduzido ao penoso consumir.

Um homem rico acumulou muito entendendo que isso daria significado e prazer pleno à vida, conta Jesus numa parábola (Lucas 12:15-21). E Jesus narra que no pico do muito ter, o rico teve a sua a teoria detonada: “… Deus lhe disse: Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?” Em seguida Jesus aponta a sabedoria primordial: “…a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. E Jesus adverte: “Assim acontece com quem… não é rico para com Deus.”