Por ser muito do interesse dela, a mídia se esforça para engajar os brasileiros na Copa de Futebol 2018. Porém, eles não estão entusiasmados. Diferente das outras Copas, quando se chegava até ao vandalismo de pintar a rua, por enquanto a agitação está sumida.

Entre as explicações para o desinteresse, predomina a de que ele se deve tanto à decepção com os políticos, como o fraco desempenho da economia. Então, como o país vive um momento desanimador, não há disposição para festa de Copa.

É saudável ver que finalmente uma Copa de futebol não causa frenesi nos brasileiros. Nas Copas passadas, o nível de desvario sempre foi desproporcional ao que o futebol deve representar para o universo humano e uma nação. Calibrar a vibração de Copa é sábio e necessário. Se não, o discernimento da vida fica distorcido, levando a caminhos lamentáveis. Como já aconteceu.

Porém, se a ausência de agito é apenas por causa do momento baixo do país, então a razão de expressão comedida para com a Copa é equivocada. Se essa for a explicação para a apatia, isso significa que, se a nação não estivesse em crise, os brasileiros estariam vibrando com a Copa, extrapolando como sempre fez o valor que o futebol merece. Como já aconteceu em outras Copas, se estaria avaliando o país, definindo patriotismo, e até influenciando eleições, com o referencial futebolístico.

Nesse momento de crise, e quando o povo não se deixa entorpecer com o futebol, há uma excelente oportunidade para reflexão sobre o que é prioritário e urgentemente necessário. A nação precisa repensar sua história e cultura.

É preciso equacionar o valor do futebol, esse esporte em cujos jogos há até dezenas de mortes anualmente (o número não é maior devido ao policiamento robusto). Como todo esporte, o futebol tem seu lugar. É um esforço lúdico através do qual, nos limitados tempo de lazer, as pessoas se entretêm. Na verdade, no futebol, torcedor nada ganha. A vitória do torcedor, seja placar ou título, é entidade nula. Ganham somente aqueles que estão diretamente envolvidos com o esporte.

Então, o futebol é uma brincadeira, e apenas uma brincadeira, ainda que milionária para quem o manipula. Ele tem seu lugar no universo humano, mas um lugar muito pequeno. No caso da Copa, ele não serve para medir o sucesso de uma nação. E nem justifica ele levar o brasileiro ao delírio. Jogadores não são soldados da Pátria, mas apenas profissionais em busca de fama e riqueza particulares.

Envolvidas pelo frenesi do futebol, as pessoas não percebem que o futebol é uma inciativa privada. A FIFA não é propriedade da ONU. E nem a CBF é um órgão governamental, ou do povo brasileiro, como se fosse algo como Exército Brasileiro. Os brasileiros não votam nas decisões da CBF. FIFA e CBF são organizações privadas e bilionárias que manipulam bem o mercado. Conseguem retirar valores fabulosos dos bolsos das pessoas. E, paralelamente, enriquecem instituições parasitas, como boa parte da mídia.

E essas organizações mordem dinheiro vultuoso do governo (ou, mais dinheiros do povo), como aconteceu na Copa passada no Brasil, além de muita corrupção atrelada. E, como a Rússia não é um primor quanto a isenção de corrupção, fica-se imaginando como foi a história da Copa por lá. Aliás, tanto a FIFA como a CBF revelaram ser organizações muito corruptas nas décadas recentes. Assim, Copa tem sido oportunidade de muita exploração. Na mesma direção, alguns astros maiores do futebol estão enroscados com a justiça por agirem criminosamente contra o fisco. Mais corrupção.

Se o atual envolvimento comedido com a Copa é um sinal de maturidade, revelando que o brasileiro aprendeu a separar o que é de valor do que é supérfluo, então o país vive um momento marcadamente positivo. Há sabedoria nessa ausência de frenesi de Copa.

Brincadeira faz parte da vida, desde que permaneça como brincadeira. E como brincadeira, a Copa pode ser desfrutada. Essa brincadeira em nada se relaciona com a situação ser boa ou ruim. Diferente do equívoco das outras Copas, a condição da nação nada tem a ver com futebol. Brincadeira à parte, é preciso focar seriamente no fundamento da vida e nação. Chega das inócuas vitórias de Copa. A nação precisa de outro tipo de vitória.