Nestes dias torcedores chegam efusivos aos estádios na Rússia. E o torcedor do time vencedor, a cada partida, sorri e vibra. Essas emoções são definidas como a alegria produzida pela Copa. Essa definição é um enorme equívoco. O futebol provoca diversas reações e experiências, sendo algumas agradáveis. Porém, futebol e Copa nunca produzem alegria.

O futebol e Copa são sobre competição. E alegria não se faz presente no mundo da competição. Durante a Copa se vê após cada jogo, e certamente de forma mais dramática após a partida final, jogadores e torcedores com cara de desgosto e desapontamento. E muitos em choro, por mais absurdo que seja o chorar por causa do futebol. São os perdedores.

E, posteriormente, haverá até acusações ao se buscar os responsáveis e causas das derrotas, com muitos rompendo relacionamentos. Isto é, nada de alegria, muito pelo contrário. Apenas uma pequena parte será contemplada com a experiência da momentânea animação da vitória. E a vibração do vencedor irá se amainar até desaparecer. Assim é o futebol e a Copa.

Diferentemente, a alegria é sublime e virtuosa. Ela não é construída em cima da derrota ou tristeza do outro. Ela não é algo que para um ter, os outros precisam perder. E muito menos chorar. Albert Schweitzer, teólogo e médico alemão, contemplado com o Premio Nobel da Paz, esclareceu isso sabiamente: “Alegria é a única coisa que multiplica quando você a compartilha.” A alegria transcende ao mundo egocêntrico, ufanista e competitivo.

Normalmente se equipara felicidade e alegria. No entendimento dos gregos antigos, sobre esses termos, transparece que para eles havia uma nuance que separava alegria e felicidade. Seus pensadores muito debateram o conceito de felicidade, ou, ser feliz (“makários”).  Para os gregos, felicidade era a liberdade das preocupações normais da vida. Uma condição gozada por aquele que encontrava a chamada boa sorte: dinheiro, saúde, filhos, etc. Isto é, felicidade seria a impressão agradável provocada por itens exteriores à pessoa.

Mas os gregos também falaram em alegria (“chará”). Ela era descrita como a “culminação do ser” ou “bom humor da alma”. Entendiam alguns deles, que “chará”, ou alegria, podia ser partilhada por Deus, ao ser humano, através da virtude e sabedoria. É relevante notar que, para eles, alegria não era primordialmente o oposto de tristeza, mas do medo. Ou seja, sem o medo, dominava a alegria. Assim, alegria seria a experiência que não se origina no exterior, mas no interior da pessoa.

O frenesi da Copa pode até trazer felicidade, mas não alegria. Se trouxer felicidade, será na proporção da natureza secular da Copa. É a felicidade de ganhar um jogo ou o título, enquanto os outros são perdedores. E essa felicidade, como é próprio dela, vai se esvaindo conforme o impacto do feito perde o encanto. Então, conquistas na Copa podem ser o estímulo externo para uma sensação animada, porém, de abrangência limitada, temporária e para um grupo reduzido. Por isso a alegria não pode advir da Copa. Alegria é uma experiência sublime no interior da pessoa.

Sem Deus como fonte de sua alegria, o ser humano irá de Copa em Copa, e outros eventos e coisas, experimentando esse subir frenético das emoções. Mas, em seguida, também experimentará o dissipar dela, sempre deixando um sentimento de nulidade. Somente o acerto com Deus, e o relacionamento eterno com Ele, produz o que o espírito humano anseia – a alegria. Discorrendo sobre o efeito do domínio da presença de Deus sobre o íntimo do verdadeiro cristão, o Apóstolo Paulo chamou esse efeito de “fruto do Espírito”. E apontou que esse fruto é algo composto, sendo os gomos interligados: “O fruto do Espírito é amor, paz, alegria…” (Gl 5:22, Bíblia).

O acontecimento histórico ilustra bem a experiência. Em meio a difíceis desafios, séculos antes de Cristo, depois de se acertar com Deus, o povo ouviu sobre o reencontro com a fonte da alegria. O líder Neemias, o reconstrutor dos muros de Jerusalém, declarou:  “… a alegria do Senhor é a vossa força.” (Bíblia, Ne 8:10)

Atualmente esse acerto se encontra através de Cristo. É o acerto com Deus, ou, a paz com Deus. Mediante a morte substitutiva de Cristo na cruz, no lugar do culpado ser humano, o perdão é concedido por Deus a todo arrependido. É o perdão gracioso. Por ele a pessoa encontra a esperança eterna em Deus. Esse acerto, que atinge o interior e toda a vida da pessoa, é a causa da alegria.

Falando da alegria divina que vem através dele, Cristo afirmou aos seus discípulos: “…ninguém lhes tirará a alegria.” (Bíblia, Jo 16:22) Refletindo corretamente essa verdade, em 1723 o compositor clássico Johann Sebastian Bach assim intitulou uma de suas músicas mais apreciadas: “Jesus, a alegria dos homens”. Ou, “Jesus, permanece sendo a minha alegria.” Fora disso, sobra apenas alguma felicidade.