Precioso é o benefício da pandemia do Covid-19, mais conhecido como Coronavírus. Certamente ela traz enormes danos, especialmente as lamentáveis mortes. Mas há um outro lado desse fenômeno. Para o sensato, a pandemia pode ser tornar muito proveitosa. E seria trágico se desperdiçar a oportunidade.

O ser humano, na individualidade e no coletivo, em geral vive fora da realidade. A pandemia propicia um choque de realidade. Ela vem interromper esse viver sonâmbulo. De repente abre diante dos olhos verdades que não se via. Ou, se ignorava, anestesiado pelos afazeres e perspectivas etéreas.

Inesperadamente explode essa pandemia testificando quão frágil é o ser humano, bem como sua coletividade. O acontecimento choca o sentimento de tranquilidade e segurança que domina a mentalidade atual. Mesmo num mundo tecnológico e científico, a saúde e vida podem ser universalmente perdidas e isso repentinamente. E o coronavírus é um alerta que algo pior ainda pode acontecer. Limitação e finitude da vida ficam patentes diante do coronavírus.

Todos são sacudidos com a verdade que não há sistema de saúde que possa atender a todos, nem nos países desenvolvidos. E nenhum governo ou sistema econômico conseguiria manter uma enorme reserva de recursos, sem utilidade, aguardando uma possível pandemia futura. Recursos institucionais serão sempre socorros inadequados. São limites humanos.

Sem nenhuma previsão, as atividades produtivas foram freadas bruscamente pelo coronavírus. Ainda se contabilizará os prejuízos e o tempo de possível recuperação. A perspectiva é tenebrosa se a paralização se prolongar para além de três semanas. E uma pandemia mais grave arrasaria a economia. Seria uma catástrofe em pouco tempo. Enfim, é ilusório esse sempre esperar se amanhecer com oportunidade de trabalho e prosperidade.

A preciosa lição do coronavírus é que o ser humano necessita rever o que pensa de si mesmo. Precisa se ver muito pequeno. E, consequentemente, rever a atitude dele para com sua existência. “O que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa,”, já alertava Tiago (Bíblia, Tg 4:14).

O despertar provocado pelo coronavírus é funesto. Nada é garantido. Tudo é muito frágil. Bate na face a realidade da limitação humana, enfermidade generalizada repentina, insuficiência dos sistemas de socorro e volatilidade da estrutura econômica. Se é funesto esse despertar, o viver se torna desolador. O coronavírus informa que o ser humano precisa encontrar um porto para seu espírito que não esteja nele mesmo, e nem na humanidade e suas estruturas.

Em meio à essa realidade, é surpreendente ler o mandamento “Aquietai-vos”, na Bíblia, no Salmo 46, verso 10. No salmo, a voz de Deus ressoa: “Aquietai-vos…” Na primeira parte desse salmo o autor relembra as incertezas das forças da natureza, ponderando certas possibilidades: “…ainda que a terra se transtorne… ainda que as águas tumultuem…” Na segunda parte do salmo, o escritor se volta para a fragilidade das estruturas sociais: “Bramam as nações, reinos se abalam…” Em meio a tudo isso, o salmo avança para a conclamação de Deus: “Aquietai-vos” (Há versões bíblicas que traduzem esse verbo com “parem de lutar”, num restrito sentido bélico, mas o original hebraico tem o sentido mais abrangente do “aquietar”).

A lição da pandemia sobre quão desoladora é a realidade existencial, encontra a resposta na voz de Deus: “Aquietai-vos”. Entretanto, diante dessa realidade incerta, o aquietar-se é injustificável. Porém, no salmo, o aquietar-se não está suspenso no ar. Ele é justificado. No salmo, a voz de Deus diz mais: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.” Então, não é um aquietar como mero interromper de atividades. Nem tem o sentido budista de estado Zen, ou, tentativa de se desconectar da realidade. E nem da ataraxia dos estoicos, buscando uma indiferença para com a realidade. O salmo aponta para um aquietar-se íntimo em relação a pessoa e ação de Deus: “sabei que eu sou Deus”.   

O ser humano nunca terá base para se aquietar se o ponto de descanso dele está numa crença de estabilidade da natureza e confiança nos sistemas de apoio e econômicos da humanidade. E as abstenções filosóficas e religiosas do budismo e estoicismo são apenas fugas. Esse tipo de aquietar é viver um sonambulismo espiritual que se despertará a qualquer momento, repentinamente, para um transtorno inimaginável. O aquietar necessário e embasado é possível somente neste conhecimento: “…sabei que eu sou Deus.” É um aquietar-se diante e com Deus. Acima dos transtornos e inseguranças, está a direção eterna de Deus.

Fica então um único caminho para o aquietar do espírito humano. Um encontrar com Deus que conduza a desde já um peregrinar eterno com Ele, algo viável na mediação graciosa em Cristo. É viver sabendo que as coisas não estão entregues a si mesmas. Há um Deus sobre todas as coisas. Viver com Ele e para Ele é encontrar descanso e sentido eterno. E isso em meio a presente realidade incerta e seus possíveis caos. “Aquietai-vos”.