Em 1970, Katherine Power, quando estudava na Universidade Brandeis em Boston, EUA, se envolveu com um movimento radical. Quando ela e seus companheiros assaltaram um banco, um policial foi assassinado. Katherine se tornou uma fugitiva, constando na lista dos mais procurados pelo FBI.

Pressionada, Katherine se mudou para Oregon, adotando um nome falso. Estabeleceu um negócio, se casou, teve uma filha e se envolveu com a comunidade. Mas, apesar da vida camuflada, anos depois ela sofria de depressão e tormentos.  Em 1993 Katherine confessou o crime à justiça. Depois comentou: “Estou reaprendendo a viver com transparência e verdade no lugar de vergonha e falsidade.”

Roubando um banco, ou contando uma “pequena mentira”, o ser humano convive com o fato que ele falha em muitas formas e com variadas pessoas. Sentir culpa é inerente ao ser humano, uma vez que ele é uma criação moral e espiritual. O impacto da culpa é real em todo ser humano, ainda que nem sempre seja evidente. Karl Menninger, renomado psiquiatra norte-americano, afirmou que 75% dos pacientes ficariam bem se pudessem eliminar a culpa que carregam.

Freud propôs que o problema da culpa viria dos dramas intrapsíquicos das entidades mentais abstratas e artificiais que ele mesmo idealizou. E poderia ser erradicada pela psicanálise. Através das décadas surgiram muitas alternativas divergentes de diversas correntes da psicologia. Todas prometem sublimar a culpa. Porém, a culpa e seu efeito persistem de forma muito real.

Hobart Mowrer foi presidente da Associação Psicológica Americana em 1953, pesquisador nas universidades de Harvard e Illinois. Ele entendeu bem essa saga da psicologia. Depois de seguir Freud por anos, Dr. Mowrer concluiu que a psicanálise não “curava”. Ele entendeu que os distúrbios mentais e emocionais, chamados de neuroses, vêm da falta de honestidade em relacionamentos. E entendeu que o reprimir da culpa leva a posturas anômalas.

Depois de repensar a questão, Dr. Mowrer concluiu: “Você é tão doente quanto seus segredos.” Movido por essa conclusão, ele abandonou o caminho da “culpa psicológica”, criando a “Terapia da Integridade”, baseada na verdade moral e culpa real. Na proposta do Dr. Mowrer a solução para os desacertos emocionais e comportamentais vem de se reconhecer a culpa e confessar o erro.

Entretanto, ainda que no caminho certo, Dr. Mowrer não caminhou o suficiente. Mesmo depois da devida confissão e reparação diante de si mesmo e do próximo, o espírito humano sabe que a erradicação da culpa não está completa. O ser humano sabe que primeiramente é devedor diante de uma justiça transcendente à jurisdição humana.

Depois de cometer um adultério, o grande rei Davi, séculos atrás, viveu o drama da culpa. Honestamente, ele agonizou: “…eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue” (Bíblia, Salmo 51:3). E ele entendeu lucidamente que primeiramente errara diante de Deus, o criador e referência da existência humana. E declarou: “Contra Ti, só contra Ti pequei e fiz o que reprovas…” (Salmo 51:4).

E mais, Davi compreendeu que o escape não vem de autoflagelo ou compensação moral e religiosa: “Não Te deleitas em sacrifícios… Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração… contrito” (Salmo 51:17). Então, em arrependimento sincero, Davi clamou: “Tem misericórdia de mim, Ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga minhas transgressões” (Salmo 51:1).

Somente a misericórdia divina fecha esse drama da alma humana. A erradicação da culpa é o que a misericórdia de Deus em Cristo veio proporcionar. No fato e suficiência da morte substitutiva dele na cruz há perdão para erradicar a culpa de todo arrependido.