A delação sublime não aconteceu ainda entre as muitas dos atuais escândalos de corrupção. Mas aconteceu há séculos atrás. Ela está solidamente registrada. E tem sido contada à volta do mundo nas variadas línguas.

Tal delação foi feita por um fiscal alfandegário durante o império romano. Ele era judeu e trabalhava na cidade de Jericó. A terra dos judeus estava sob o jugo romano. E os romanos impunham pesados impostos sobre os judeus. Para arrecadar esses impostos, os romanos recrutavam judeus. Porém, o judeu que assim servisse aos romanos, os dominadores e opressores, era visto pelos judeus como um pecador muito detestável.

Obviamente que muitos aceitavam essa função fiscal tendo em vista a vantajosa remuneração. Mas, além da remuneração oficial, a posição de fiscal ofereceria oportunidades de extorsão e propina. Enfim, o judeu vira-casaca, que trabalhasse como fiscal para os romanos, era sempre alguém rico. Acumulava a riqueza típica da riqueza dos corruptos: descomunal, relativamente fácil e amealhada em poucos anos.
Jericó era uma cidade importante e estratégica devido estar na rota entre ocidente e oriente. Fiscalizar em Jerico era atividade privilegiada.

Lá estava trabalhando aquele fiscal, desfrutando de sua fortuna, até que um dado ilustre visitante passou por Jerico. O visitante acabou se hospedando na casa do tal fiscal.

Em sua casa, o fiscal ouviu o visitante falar sobre uma nova forma de viver. Concluída a conversa, impactado pelo que escutou, o fiscal declarou a todos presentes na ocasião: “Estou dando a metade de meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais. ” Sem pressão de polícia e investigação, o fiscal abriu a boca e nada escondeu. Porém, nos termos de sua delação, não sobrou mansões, iates, carros importados, conta offshore, etc. O que era da corrupção, ou fruto do investimento da corrupção, se foi. Enfim, foi um radical abandonar da sujeira e suas vantagens.

Essa delação do fiscal foi sublime por muitas razões. Ela não foi sobre o erro dos outros, mas uma aberta e quebrantada delação de si mesmo. Ela não foi acompanhada de racionalizações, mas proferida de forma nua e sem subterfúgios. Ela não foi apresentada sob a pressão de autoridades da lei, mas foi anunciada a comunidade de forma voluntária e transparente.  Ela não foi feita em troca de favores legais, mas movida por pura transformação do coração. Ela não foi um ato de acordo, mas de arrependimento e sem pré-condições. Ela não servia para tentar preservar uma parte, mas um rompimento com tudo que fosse riquezas imundas. Ela não foi um meio de aliviar as consequências da incriminação, mas fruto de transformação interior e exterior, no desejo de ter paz com a verdade.

Entretanto, essa delação do fiscal, cujo nome era Zaqueu, foi sublime por outras duas razões mais significativas e elevadas. Uma é que o visitante que impactou o fiscal se chamava Jesus, O Cristo (Lucas 19:1-10). Então, ao delatar a si mesmo, o fiscal assim fez primeiramente diante de Deus na sua manifestação em Jesus Cristo. Antes de se delatar publicamente, Zaqueu se acertou com Deus. E quem se acerta com Deus, não tem dificuldade de se acertar com os seres humanos, pois o orgulho é estilhaçado e o ídolo do material é destronado.

A outra razão da sublimidade dessa delação foi revelada por Jesus Cristo que declarou: “Hoje houve salvação nesta casa! ” O que é salvação? Salvação é ser retirado de uma situação condenável para uma oportunidade nova e edificante. Então, foi salvação porque Zaqueu, experimentando o verdadeiro arrependimento, rompera com tudo que era sujo, independente da perda material ou de status. E Zaqueu foi perdoado, ou limpo, de forma absoluta pela graça de Deus provida em Cristo. E mais, Zaqueu foi transformado, sendo livre agora para viver a vida com Deus e para Deus, uma vida bem diferente da anterior. Acima de tudo, uma vida de paz com Deus.

A delação de Zaqueu é sublime, mas não é única. Ela pode ser repetida. E tem se repetido na história da humanidade. Ela se repetiu toda vez que alguém teve um encontro real com o Cristo da cruz – Aquele que assumiu sobre si toda imundícia e culpa comum a todo ser humano. Essa delação não é uma necessidade exclusiva de corruptos financeiros grandes ou pequenos. A torpeza, em muitas formas, é inerente a todo ser humano em um modo ou outro.

Porém, infelizmente, salvação é experiência de uma minoria, inclusive, número dos que a encontram é bem menor do que o número daqueles que se dizem cristãos. Mas ela pode acontecer em qualquer verdadeiro quebrantado que reconheça sua carência de perdão e transformação em Cristo.