Em Efésios 6:4, Paulo começa dizendo que os pais não devem fazer algo. “Pais, não irritem seus filhos”. De todas as coisas que Paulo poderia ter incentivado os pais a não fazer, ele escolheu essa. Surpreendente. Por que essa? Por que não outras como não desencorajá-los? Ou não mimá-los? Ou não tentá-los a cobiçar, mentir ou roubar? Ou não abusar deles? Ou negligenciá-los? Ou dar um mau exemplo para eles? Ou manipulá-los? De todas as coisas contra as quais ele poderia ter advertido os pais, por que: “Pais, não provoquem seus filhos à ira”?

A ira se levanta contra a autoridade

Ele não nos diz o porquê. Então, deixe-me adivinhar pelo que sei das Escrituras e da vida. Vou sugerir duas razões. Primeiro, ele adverte contra provocar a ira porque é a reação mais comum de um coração pecador quando se confronta com uma autoridade. O pai personifica a autoridade. À parte de Cristo, a criança incorpora a vontade própria. E quando os dois, autoridade e vontade própria, se encontram, a raiva aparece. Uma criança de dois anos faz birra e um adolescente bate a porta – ou pior.

Então, eu creio que Paulo está dizendo que haverá muita ira mesmo se você for o melhor dos pais. Portanto, faça todos os esforços, sem comprometer sua autoridade, verdade ou santidade, para evitar provocar raiva de seu filho. De forma intencional, seja presente e afirme sua autoridade, verdade e santidade, de maneira a tentar minimizar reações iradas. Mais adiante sugerimos como fazer isso.

A ira devora outras emoções

Creio que a segunda razão pela qual Paulo adverte não provocar a ira em nossos filhos é porque essa emoção devora quase todas as outras boas emoções. Isso amortece a alma. Isso distancia o coração da alegria, gratidão, esperança, ternura, compaixão e bondade. Portanto, se um pai puder ajudar o filho a não ser dominado pela raiva, ele pode desbloquear seu coração para uma dúzia de outras emoções preciosas que tornam a adoração possível e tornam os relacionamentos agradáveis. Paulo está tentando ajudar os pais a fazer o que ele fazia com seus filhos espirituais. Ouça a linguagem do coração em 2 Coríntios 6:11-13: “Falamos abertamente a vocês, coríntios, e lhes abrimos todo o nosso coração! Não lhes estamos limitando nosso afeto, mas vocês nos estão limitando o afeto que têm por nós. Numa justa compensação, falo como a meus filhos, abram também o coração para nós!”

Então, o que diremos aos pais sobre esse assunto da ira de nossos filhos? Primeiro, devemos dizer que esse versículo não pode ser usado como chantagem emocional pelas crianças. A chantagem dirá: “Estou bravo, pai, então você está errado.” Algumas pessoas nunca deixam esse egocentrismo infantil: “Minhas emoções são a medida do seu amor; portanto, se estou infeliz, você não está me amando.” Todos nós experimentamos esse tipo de manipulação. Sabemos que Paulo não quer dizer isso porque o próprio Jesus irritou muitas pessoas e nunca pecou ou deixou de amar perfeitamente. Portanto, como toda criança é pecadora, mesmo o melhor e mais amoroso uso da autoridade, poderá eventualmente provocar uma reação irada.

Evitando a raiva legítima em nossos filhos

Portanto, o versículo 4 não ensina que sempre que uma criança fica com raiva, o pai pecou. O objetivo é alertar os pais de que há uma enorme tentação de falar e agir sem considerar coisas que causarão uma ira legítima e evitável em nossos filhos. Muitos de nós estão cientes das coisas óbvias a evitar: gritaria, punição injusta e excessiva, hipocrisia, etc. Mas ainda mais importante do que evitar os agravantes óbvios, nós pais devemos pensar sobre que tipos de coisas preventivas podemos fazer. Não apenas evite a ira, mas diminua ou remova a ira. Esse é o verdadeiro desafio.

Pense no seguinte: Deus nunca fez nada que causasse uma ira legítima em nenhum de seus filhos. Nunca nos é permitido ficar com raiva de Deus. Nunca! Porém isso acontece e devemos admitir, tremer, arrepender-se e voltar à humilde confiança em sua bondade soberana. Mas ainda que Deus nunca tenha feito algo que provoque em nós uma ira legítima, o que Ele fez a respeito do colapso de nosso relacionamento com Ele? Ele tomou iniciativas para curá-lo! Iniciativas que foram infinitamente caras para ele.

Vencendo a ira pela morte de Jesus

Veja o que Paulo diz sobre vencer a ira em relação à paternidade de Deus. Esse texto é um modelo para nós, pais, sobre uma das estratégias mais cruciais para superar a ira em nossos filhos. Veja Efésios 4:31-5:2. Deus está falando com seus filhos: “Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros…” Até esse ponto, trata-se apenas de uma ordem: não fique com raiva; seja perdoador. Mas ordens são impotentes por si mesmas. O que vem a seguir é poderoso: “…assim como Deus perdoou vocês em Cristo.” Então aqui está nosso Pai Celestial enviando seu próprio Filho para pagar o preço por nossa ira pecaminosa. Nosso Pai não está apenas nos dizendo para não ficarmos irados; ao contrário, com grande custo para si mesmo, ele está superando a sua ira justa e a nossa ira injusta na morte de Jesus.

Então, no versículo seguinte, Efésios 5:1, ele diz explicitamente que está desempenhando o papel de Pai: “Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados.” Somos filhos de Deus se estivermos unidos a Cristo pela fé. Ele é nosso pai. Ele tomou iniciativas muito dolorosas para superar sua ira e nosso pecado. Somos infinitamente amados por Deus em Cristo. Portanto, pais, imitem seu Pai celestial!

Substituindo a ira pela alegria

Portanto, o ponto que estou enfatizando é o seguinte: quando Paulo diz em Efésios 6:4: “Pais, não provoquem a ira de seus filhos”, não apenas pare de fazer coisas que provocam a ira; comece também a fazer coisas que removem a ira. Supere a ira. Comece a fazer coisas que despertam no coração de seu filho outras emoções maravilhosas, que não sejam devoradas pela ira – a grande comedora de emoções.

A principal tarefa nisso tudo é que você supere sua própria ira e a substitua por uma terna alegria de coração. Alegria que transborda para seus filhos. Quando a boca do pai está cheia de raiva, as emoções mais ternas de uma criança são consumidas. Em outras palavras, ser o tipo de pai que Deus nos chama para ser significa ser o tipo de cristão e o tipo de marido que Deus nos chama a ser.

O Evangelho é a chave

Ser cristão significa receber o perdão gratuito de Deus por todas as nossas falhas e toda a nossa ira pecaminosa. Significa deixar o sorriso de Deus em Cristo derreter as décadas de raiva endurecida, entorpecente e sem emoção. Então deixar essa cura fluir para os outros. “Livrem-se … de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo.” Deus os perdoou. Deus foi gentil com você. Deus é terno para com você. É tudo por causa de Cristo. Portanto, em Cristo, pelo Espírito, pais, podemos fazer isso. Podemos afastar a ira, perdoar e despertar a ternura de nossos filhos com toda uma gama de emoções preciosas que haviam sido devoradas pela raiva. Elas podem reviver novamente em você e nos seus filhos.

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John Piper (@JohnPiper) é fundador e professor do ministério DesiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, ele serviu como pastor da Igreja Batista Bethlehem, em Minneapolis nos Estados Unidos. Ele é autor de mais de 50 livros.

Texto original (em inglês) “A Father’s Conquest of Anger in Himself and in His Children” disponível em https://www.desiringgod.org/messages/marriage-is-meant-for-making-children-disciples-of-jesus-part-2

Traduzido e adaptado por Alexandre Valotta da Silva .