Rui Barbosa ficou profundamente desapontado com a traquinagem que se instalou no país após a implantação do regime republicano, cuja proclamação ele apoiara. É conhecida a ponderação dele diante da continuada imoralidade: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. ”

A corrupção dominante pode levar a uma contaminação imoral generalizada. E se isso acontecer, dominará um travestir da moral. A desonra será honrada, e a honra será desonrada. Os cidadãos desistirão de fazer o bem. Enfim, uma tragédia moral para o indivíduo e sociedade.

O desanimo viria da perspectiva imediatista quanto ao benefício ou resultado do se fazer o bem, ou o mal.  A avaliação entre o mal ou o bem, diante da corrupção desenfreada e prevalecente, levaria a conclusão que o bem é perdedor. Ele não compensa. O mal seria mais vantajoso. O desafio é como se impedir um desanimo moral diante de tanta imoralidade e corrupção na atualidade.

Numa visão humanista, isto é, à parte de Deus como a referência para a ética, até faz sentido a lamentável opção de se desistir do bem. Pois, se o ser humano tem a última palavra, e não há nada que transcenda a ele e sua história, então, é permitido ao ser humano o fazer o que quer e como quer. O humanismo, descartando Deus, pode tentar promover romanticamente o bem sem Deus. Porém, o humanismo não tem um fundamento transcendental que justifique e exija racionalmente que todos façam a opção pelo bem.

A problemática humanista é bem encaminhada numa frase do livro “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievski na secção “O Hino e o Segredo”.  Refletindo o pensamento do personagem Ivan, surge a ponderação: “Mas, neste caso, que será do homem sem Deus e sem imortalidade? Quer dizer que tudo será permitido? ” A resposta humanista atual é que sem Deus tudo irá bem. O ser humano amará a si e a humanidade, construindo e vivendo uma moralidade recomendável. No entanto, essa proposta ainda está por ser comprovada. A desvairada arrogância da moralidade sem Deus tem resultando em relativismo e decadência.

Há um caminho melhor. É o ser humano sair do centro e entronizar Deus como a referência suprema para o bem e vida. Além de ser uma referência estável e transcendente, a soberania de Deus garante que a última palavra sobre os caminhos humanos, bons ou maus, será dada por Deus. A humanidade não está entregue a si mesma. Deus é o antidoto para o mal. Agostinho elucidou bem quando disse que o mal é a ausência do bem, ou de Deus. Onde a luz de Deus impera, as trevas do mal são dissipadas.

Sem Deus, domina o equívoco do observar o mal de forma imediatista e parcial. Porém, o mal sempre agrega, no interior e exterior da pessoa, muitas detonações. Isso tanto naquele que o pratica, como naqueles que estão à sua volta, inclusive família. Por exemplo, se o ser humano chega a uma conquista financeira corrupta, isso afeta outros aspectos de seu interior e exterior. O mal sempre deixa um rastro de destruição atrás e à volta de suas possíveis conquistas.

Diferentemente, com Deus, o ser humano conhece o bem. O bem sempre edifica o ser humano de forma holística. E, sendo Deus soberano, a Ele pertence o ultimo julgamento sobre a história e escolhas humanas. É lucida a exortação da Palavra de Deus: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá… E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. ” (Bíblia, Gálatas 6:7-9). A deprimente perspectiva de Rui Barbosa é tratada pelo Deus transformador em Cristo. É possível uma vida com Deus. E uma vida edificante. Nele há razão suficiente para se caminhar com a virtude mesmo diante da enxurrada imoral.