O estado do Espirito Santo está sitiado pelo crime. Criminosos assassinaram, e gente normal saqueou. O que há em comum entre os dois grupos? O que esse evento capixaba sinaliza para a nação? Quem tem olhos para ver, observa o conjunto e não as particularidades, concluindo que a nação está ruindo aceleradamente.  É comum se olhar tudo pelos olhos da mídia. Por necessidade do seu negócio, a mídia tende a ser particularista, ou fragmentária. Ela precisa um novo produto, ou fato, a cada dia que passa. E ela mantém o fato em evidencia até deixar de ser novidade, e não até que seja solucionado.

Esse observar fragmentado dos problemas nacionais leva a outro equívoco. As discussões sobre soluções são particularistas. A conversa é sobre como consertar uma dada faceta ou problema. É um tratamento de facetas. Não é holístico. Fala-se apenas de uma parede trincada, ignorando que todas estão trincadas, não discernindo que o cerne do problema é a fundação condenada do edifício.

As particularidades nacionais, ou facetas, são infindas. A saúde está falida. A educação está confusa e ineficiente. Montada no relativismo, a escola vive o niilismo moral. A segurança pública está arruinada. Presídios estão entregues a si mesmos. O crime está super-organizado. Drogas estão à disposição. Criminoso foi travestido de vítima. Vandalismo é arte e direito de expressão. A economia estagnou.  Finanças públicas faliram. As casas de representantes públicos, especialmente o Senado e Congresso, se transformaram num covil de salteadores. A justiça superior é inconfiável. A família foi destroçada. “Igrejas” são instrumentos de exploração. Desonestidade e corrupção são o jeito comum da sociedade. O bacanal virou cultura e mídia. Etc.

É estulta a abordagem comum de ver e focar em uma dada faceta isoladamente. A abordagem sábia é aquela que vê o todo. E observando o todo, a visão sábia percebe que há algo errado que é muito mais profundo que as particularidades e facetas. E, no sábio atentar para o todo, é possível se discernir qual é a causa comum e basilar do conjunto de todas as facetas problemáticas.

O que teria em comum todas as misérias nacionais? O Brasil abraçou o regime democrático. Esse é um regime cuja sustentação depende da fibra moral do povo. A qualidade dessa fibra determina o resto. Na democracia, tendo o domínio de sua liberdade, o povo constrói uma nação conforme o que ele é e quer. Ou seja, a nação não será diferente do que o povo é e quer. O ideário do povo promoverá a edificação ou implementará uma realidade caótica.

O arguto estadista francês que fez a renomada visita e análise dos EUA, que resultou na obra “Democracia na América”, Alexis de Tocqueville, declarou lucidamente: “Liberdade não pode ser estabelecida sem moralidade, e nem moralidade sem a fé.” O sábio ponderar, sobre o quadro geral do Brasil, não pode evitar o diagnóstico que, debaixo do edifício nacional das paredes trincadas, está a fundação da bancarrota moral que domina o ideário e cultura. E Tocqueville apontou lucidamente que sem moralidade não há liberdade. Há sim a libertinagem e caos.

Somente quando a moralidade impera é que a organização se viabiliza, seja tanto no relacionamento ou projeto de duas pessoas, como de uma empresa, cidade ou nação. Sem a moralidade dominando a mentalidade e comportamento dos envolvidos, tudo que se tenta realizar termina em confusão e fracasso. E moralidade não apenas viabiliza a competência de planejamento e organização, mas também dá a forma e eficiência ao desenvolver dos projetos e interações. Ainda que se apresentem programas rebuscados e discursos empolados, sem a moralidade os projetos são distorcidos, inviáveis, inaplicáveis e desfocados, bem como transitórios. E esse é o quadro comum do operacional nacional.

A moralidade, ou a falta dela, é a fundação subjacente que forma o que se vê nas facetas todas. Sem ela, é impossível o acerto nacional. Nenhuma faceta é consertada isoladamente, por exemplo, é engano focar o problema da saúde pública como um fato à parte do todo. E nenhuma faceta ficará imune aos efeitos da fundação imoral, por exemplo, é equivocado esperar que, se a sociedade toda está moralmente afetada, a polícia ficará imune. E mais, nenhuma faceta sozinha será a salvadora de todas as outras, por exemplo, uma presidência da república, por mais moral que fosse, isoladamente não consertaria a nação.

O mais lastimável do domínio da imoralidade é que a nação, fazendo mal a si mesmo, não tem fibra para reagir ao caos e corrupção. Não tem porque isso pede fibra moral. É preciso reação, consternação e revolta. A solução diante do desmoronar da nação exige que pelo menos uma maioria representativa encontre a moralidade e o modo de vida concordante com ela.

Tocqueville adverte que moralidade não pode ser estabelecida sem “fé”. As ciências humanas e sociais, entendendo que a verdade está centrada no ser humano, não formaram cidadãos morais. Essa pretensão equivocada fracassou. Moral depende da referência transcendente, supra-humana, de Deus. Recuperar a fundação moral exige um quebrantamento, arrependimento e retorno nacional a Deus.