É o ser humano produto do meio? Foi marcante a contribuição de um psicólogo russo para essa questão. Ele deixava alguns cachorros com fome, depois os alimentava e, ao mesmo tempo, tocava um sino. Famintos, diante da comida, os cachorros salivavam. Repetiu isso diversas vezes. Posteriormente, o pesquisador não deu alimento, mas apenas tocou o sino. E os cachorros salivaram. Com essa famosa experiência do psicólogo Ivan Pavlov, no século passado, foi concluído que o estimulo definia o comportamento.

Tal conclusão foi transferida para os seres humanos. Ainda que ideia do meio como formador já estava implícita, dois séculos antes, em pensadores empiristas como John Locke e J. J. Rousseau, o psicólogo norte-americano J. B. Watson marcou época com seus argumentos que o ser humano se comporta conforme o estimulo exterior. B. F. Skinner, outro psicólogo, foi para o laboratório, especialmente manipulando pombos, objetivando corroborar a tese de Watson. Skinner acabou postulando o “Behaviorismo”, ou “Comportamentalismo”.

O entendimento passou a ser que o comportamento humano é determinado pelo ambiente e estímulos. Na visão popular, essa tese passou a ser definida com a frase “o homem é produto do seu meio. ” É enorme o impacto desse entendimento para a pessoa. Nele, o comportamento humano é condicionado por um determinismo social. Ou seja, o ser humano é vítima de seu ambiente e história. Ele não pode agir diferente do seu meio.

Freud marcou época no esforço do ser humano para entender a si mesmo, mas indo além das dimensões exteriores focadas por Watson e Skinner. Operando com a categoria dos conflitos relacionais-sexuais, desde a tenra idade do indivíduo, Freud viu o ser humano como resultado de seus conflitos interiorizados. Mas nessa conclusão acabou também se instalando um determinismo no modelo freudiano. O comportamento é fruto desses conflitos interiores causados por outros. Novamente o ser humano é visto como uma vítima.
A opinião popular foi intoxicada com esses determinismos. É comum a pessoa se desfazer da responsabilidade de seus atos ou condição, culpando terceiros e transferindo a mesma para outros. E é comum os especialistas das ciências humanas proporem politicas a partir da vitimização do indivíduo. E mais, quantos não buscam aconselhamentos que rebuscam suas vidas para descobrir o que determinou o que eles são, acabando por carimba-los com rótulos psicológicos determinísticos que os enquadra numa prisão emocional-existencial.

Porém, se de um lado esse determinismo social, relacional-sexual, ou ambiental, é fuga conveniente diante da pressão das responsabilidades pessoais, do outro lado, por saber muito bem que não é assim, ninguém aceita ser tratado como não sendo livre para fazer suas escolhas. Na prática, o determinismo é aceito enquanto conveniente ao coração egocêntrico comum ao ser humano.
É verdade que o mundo à volta do indivíduo propõe e incita certos caminhos. E isso, muitas vezes, de forma poderosíssima. Para constatar isso basta se considerar a figura da mídia atual. E é verdade que experiências e relacionamentos negativos são entidades que podem destruir e ferir. Mas seria o indivíduo destinado a ser uma vítima manipulada e impotente? Ele não tem responsabilidade moral por seus atos e atitudes? E ele não poderia mudar seus caminhos, livrando-se de seus males, vícios e danos? Não poderia reagir as condições de carência e derrota buscando uma ascensão e superação na vida?

A observação ampla responde essas questões. A ficção “Oliver Twist”, de Charles Dickens, ilustra bem inúmeras sagas conhecidas na realidade. Sagas de pessoas que viveram o pior, mas romperam com suas histórias e fizeram algo digno de suas vidas. O pensamento comum que o ser humano é produto de seu meio, ou, uma vítima dele, não sobrevive a alguns questionamentos. Quem cria esse tal meio formativo? O meio é autocriado, independente dos seres humanos? E então, quem vem primeiro, a ação criadora humana ou o meio? Não seria, na verdade, o meio produto do ser humano?

O caminho do ser humano será conforme a decisão e escolhas do seu coração – essa entidade, não física, para a qual a sabedoria cristã chama a atenção há séculos. E acima do poder do meio, a revelação cristã aponta para o poder da acessível graça de Deus manifestada em Cristo. Todos dramas e males humanos foram incluídos na crucificação de Cristo. Imoralidade, vazio, vícios, culpas, amarguras, abusos, traumas, complexos, e coisas semelhantes, não precisam dominar e determinar a história humana. Essas misérias podem ser entregues e tratadas com a graça de Deus em Cristo. Há esperança. Em Cristo há poder para a transformação de qualquer história e coração.