Entre as marcas que distinguem esta época está a ênfase na diversão. Ela sempre existiu e foi muito desejada, mas nestes dias existe a indústria da diversão, ou, do entretenimento. Nunca se produziu, gastou e ocupou tanto com diversão como atualmente. O que está por trás desse fenômeno?

A contribuição de Blaise Pascal para o assunto é oportuna. O francês Pascal, matemático e filósofo, foi um prodígio que deixou sua marca na história. Em 1640, ainda aos 16 anos de idade, ele publicou um aclamado trabalho sobre as secções do cone, e nos anos futuros desenvolveu memoráveis trabalhos, como cálculos de probabilidade. E, além de outras invenções, também criou a calculadora, sendo por isso considerado o precursor do computador.

Depois de alguns anos de juventude mergulhados na vida mundana, em 1654, passou por uma marcante experiência de conversão a Cristo. Então ele se ajuntou ao movimento Jansenismo em Port-Royal. Esse movimento, seguindo Agostinho, defendia a graça suficiente e plena de Deus em Cristo. Essa convicção levou o Jansenismo, com a participação de Pascal, a embates ferrenhos com os Jesuítas. O Jansenismo acabou recebendo a condenação papal. Mas, nesse movimento, Pascal nutriu sua fé e reflexão espiritual, escrevendo sua renomada obra “Pensées” (pensamentos).

Pascal afirmou no livro “Pensées” que, para o ser humano, nada é mais intolerável que simplesmente sossegar e viver momentos sem paixões, ocupações e diversões. A razão de isso ser intolerável, segundo Pascal, é que nesse estado de recolhimento o ser humano fica face a face com sua nulidade, solidão, desacerto, impotência e vazio. E por isso imediatamente brota no interior do ser humano o tédio, abatimento, depressão, desconforto e desespero. Pascal aponta que, para lidar com essa realidade, o ser humano adota dois caminhos: diversão e indiferença.

Então, a diversão passa a ter a função de ocupar a mente e a energia do ser humano para que não reflita sobre sua miséria e vazio espiritual. Assim, a indústria do entretenimento tem mercado garantido e é uma das mais prósperas. O ser humano precisa e paga para se divertir até a morte. Semelhante a “distrair”, a palavra “diversão” trás a noção de buscar outra direção ou atenção. Passatempos e festas ganharam essa função. Uma grande fatia do que se chama de igreja cristã nestes dias é apenas entretenimento, um anestésico religioso, bem diferente do Evangelho que trata exatamente do vazio espiritual.

Entretanto, essa dinâmica se acha também no mundo profissional. Muito da dedicação ao trabalho é motivada por essa necessidade de “diversão”, isto é, enterra-se no trabalho para evitar a consciência do vazio espiritual. Então, longe de suas funções legítimas, ou seja, o trabalho ser um servir a humanidade diante de Deus e a diversão ser apenas uma das formas de descanso, diversão e trabalho se tornam fugas espirituais. Diz Pascal: “A fatalidade da nossa mortalidade e fraqueza é tão terrível que nada pode nos consolar quando nós realmente pensamos sobre ela… A única coisa boa para o homem, portanto, é ser distraído para que ele pare de pensar sobre suas circunstâncias”.

E a indiferença, diz Pascal, é a atitude daqueles que dizem não saber de onde vieram nem para onde vão, e nem se existe um Deus, ou, se o futuro será sofrer a ira de Deus. Esses, então, adotam a indiferença, dizendo que, como o quadro é complicado e não há certezas, se recusam a pensar no assunto. É o terrível sono da ignorância e indolência espiritual, mas também intelectual. A indiferença rouba do indivíduo a iniciativa e oportunidade de se conhecer a maravilhosa graça de Cristo, encontrando o preencher da vida com a insubstituível presença de Deus.

Feliz aquele que se conscientiza da fuga da diversão e o erro da indiferença. Esse poderá se libertar da tragédia desses analgésicos espirituais – entretenimento e fuga – para desfrutar da profunda, eterna e satisfeita vida com Deus, conforme o amor e perdão revelados em Cristo. Se não for assim, resta a vida com esses paliativos numa versão falsa e vazia… E o descobrir a verdade no futuro, mas tarde demais.