Todos ser tornaram, ilusoriamente, como o nobre selvagem idealizado por Rousseau. Os valores morais foram relativizados ou desconstruídos. E o resultado é que se afirma e vê uma bondade em tudo e todos. Mesmo diante da maldade patente, os arrazoados das ciências humanas, em geral vitimando o ser humano, fazem evaporar o mal e culpa tão evidentes no ser humano.

Essa visão impede as pessoas, bem como a sociedade, de serem beneficiados pela mensagem e obra de Cristo. Ele buscou e falou apenas para pessoas más. O discurso e a obra de Cristo não têm serventia para o “bom ser humano”.

Na verdade, Cristo simplesmente desconhece o “bom” ser humano. A mensagem de Cristo pressupõe que os seres humanos, ainda que manifestem algumas facetas bondosas, são essencialmente maus – “suas obras eram más” (Bíblia, Jo 3:19), “Se não se arrependerem, todos vocês também perecerão” (Bíblia, Lc 13:2), “Não há um justo, nem um sequer”. (Bíblia, Rm 3:10)

Porém, um ser humano que se considera “bom” não desejaria ser visto como rompendo com Cristo. O escape comum é adaptar Cristo para o consumo de um indivíduo e sociedade que querem ser vistos como naturalmente “bons”. Cristo deixa de ser o que fala realisticamente a um ser humano mau para se tornar um carimbador da bondade humana de fachada. É o Jesus Cristo que não perturba o ambiente atual. Ele é o “moralista” politicamente correto, pop-star, produto de consumo e milagreiro conveniente.

O encontro do “bom ser humano” com Cristo é sempre desconcertante, como foi o do jovem rico e religioso com Cristo. Ao jovem, que confiava na sua própria moralidade, Cristo retrucou: “Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.” (Bíblia, Mc 10:18) Apresentar-se como “bom”, como fez aquele jovem diante de Cristo, revela exatamente a essência do equívoco desse “bom” ser humano.

A maior miséria moral do ser humano é ele ignorar Deus como o centro de sua existência. Ou seja, ainda que diga ter alguma fé, o ser humano ignora sua necessidade plena de Deus, inclusive para ser bom. A bondade, humanamente fomentada, sem a dependência e capacitação de Deus, não é ainda a bondade plena. Aliás, a bondade que se baseia no ser humano, e não em Deus, é uma forma de egocentrismo. Ela é uma afronta à verdade de quem Deus é. E, vendo-se a partir de si mesmo e não a partir de Deus, o ser humano tem uma visão equivocada de sua realidade. E aí se declara naturalmente bom.

O ser humano pode experimentar a real bondade moral somente a partir de um acerto com a perspectiva a partir de Deus. Para isso, primeiro vem o acerto humano com a verdade que, diante do conhecimento absoluto divino que sonda até as intenções íntimas, o ser humano nunca será bom diante de Deus. Esse acerto viabiliza ao ser humano poder ver sua real condição. Mas essa condição, que demonstra a falência moral humana, estabelece consequentemente a impossibilidade do ser humano de resgatar a si mesmo ou compensar sua culpa e fracasso moral.

Tendo caído na realidade de sua condição falida, o ser humano tem a possibilidade de se ver movido a humildade do arrependimento e suplica por perdão. Mas, diante do fracasso moral patente, é preciso um perdão gracioso, ou, imerecido. A providência é o perdão propiciado pela morte de Cristo na cruz, na qual ele toma sobre si a culpa da maldade do ser humano – perdão dadivoso e misericordioso de Deus – o absolutamente bom. A crucificação de Cristo é a declaração evidente da falência moral humana. E é a expressão do maior amor que já existiu, capaz de redimir esse ser humano mortalmente falido.

Então, depois de se expor a cruz de Cristo rompendo com o passado, vem o passo derradeiro e transformador resultante desse encontro com a cruz de Cristo. A partir do arrependimento rompedor com o passado, e do poder transformador do Cristo ressurreto, vem o nascer de uma nova forma de viver tendo Deus como a referência e autoridade suprema.

Assim uma nova vida se inicia na qual Deus é o centro e referência suprema. E a partir de Deus centralizado é que nasce uma nova visão e possibilidade para o ser humano perseguir a bondade, e isso segundo Deus. Então, nunca pela virtude humana, mas sempre na dependência da misericórdia e poder de Deus. Bondade nada egocêntrica. Bondade totalmente teocêntrica. É o ser humano retornando a forma original que nunca deveria ter deixado – viver para glória de Deus, e nunca para a do ser humano.