A reforma política está em debate no Congresso – uma providencia urgentemente necessária. Porém, um Congresso réprobo é que está encarregado dessa missão. Amarrada pelo sistema eleitoral-político vigente, que precisa ser descartado imediatamente, a população é condenada a ficar na arquibancada enquanto a tal reforma vira joguete nas mãos de um Congresso pífio.

O resultado aguardado são apenas algumas mudanças que tornaram o sistema ainda mais lamentável, encastelando mais firmemente os donos do poder torto e ineficaz. Tudo indica que, no final, o Congresso não vai reformar, mas deformar um sistema eleitoral-político que já é nada recomendável. O que está em discussão no Congresso são mudanças embromadoras e apropriação de mais dinheiro público para os partidos. Aliás, com muita preocupação de livrar muitos das garras da justiça.

O sistema eleitoral-político em vigor estabelece um apartheid eleitoral. De um lado estão os reprováveis políticos e partidos, donos do poder, esbaldando-se em benesses.  Do outro, numa realidade sofrida, estão os eleitores colocados num curral eleitoral no qual são tocados para votar num sistema que os usa para preservar os que se assentam no poder. Porém, se as raposas se apossaram da chave do galinheiro, não vão repassar essa chave para as galinhas. Então, esperar uma reforma real é ilusão.

A questão é se o cidadão tem alguma opção de ação. Quadros parecidos, com o do Brasil atual, já foram vividos por outros povos, resultando em ações drásticas e agressivas, como quando da Revolução Francesa em 1789. O povo estourou a Bastilha. E manifestantes, especialmente mulheres, acuaram a família real no Palácio de Versalhes. Certamente, por um outro tipo de mobilização, no Brasil atual, a classe política se comportaria e agiria mais a contento. Seria necessário um protesto democrático retumbante que intimidasse e acuasse a classe política.

Porém, o cidadão informado e consciente não encontra um movimento organizado e digno que possa ser seu canal de expressão e mobilização. E a maior parte se sente isolada, sem capacidade de se articular e frustrada por se ver impotente. Aliás, existe até uma lamentável falta de disposição para esse tipo de ação no ideário brasileiro.

Eleições virão. Se permanecer o sistema vigente, ou entrando o que se aguarda ser aprovado pelo Congresso, o eleitor vai ser teleguiado por aquelas propagandas politicas horrorosas e infames. E resguardadas pouquíssimas exceções, a televisão será inundada com as tais bravatas de candidatos espertalhões se fazendo de justiceiros e idealistas, dizendo que com eles tudo será diferente. Planos fantasiosos serão apresentados por partidos que realmente não têm nenhuma definição e convicção.

O eleitor ouvirá uma vez mais a cantiga que ele precisa escolher bem em quem vota para que tudo melhore, como se isso fosse possível com o sistema em vigor. E no fim, o voto que o eleitor pensou que estava dando a certo candidato, vai ser manipulado pelos partidos através da tal proporção partidária. E serão eleitos candidatos desobrigados de prestar contas a uma comunidade definida. Assim, credulamente, o eleitor sairá novamente de sua casa para cumprir servilmente um tal de dever de votar que pouquíssimo significará para ele mesmo. E que nada mudará.

Se não é o caso de uma “Revolução Francesa”, então deveria haver um protesto retumbante e eficaz. Mas se esse protesto não se viabiliza, o cidadão consciente está destinado, na sua individualidade, a ser uma presa sempre manipulada pelo sistema político em vigor? A resposta é não. O eleitor tem um poder enorme na sua individualidade que se chama “voto em branco”. É o voto que diz não a todos que controlam o poder e ao sistema que os perpetua.

Esse voto é o exigir uma reforma de verdade. É oportuna a palavra de John Quincy Adams, o sexto presidente dos EUA: “Sempre vote por princípio, ainda que vote sozinho, e você poderá apreciar a mais doce reflexão que seu voto nunca é perdido.” Cabe ao eleitor examinar as opções à sua disposição. Inclusive sua liberdade de votar em branco. O lamentável será o eleitor ser servil mais uma vez.