Agora que estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, para que eu possa falar da tua força aos nossos filhos, e do teu poder às futuras gerações. Salmos 71:18

Envelhecer para a glória de Deus significa envelhecer de uma forma que mostra como Deus é glorioso. Significa viver e morrer de uma maneira que mostre que Deus é o Tesouro que tudo satisfaz. Por isso, por exemplo incluiria não viver de uma maneira que faça este mundo parecer seu tesouro. O que significa que a maioria das sugestões que este mundo oferece para os nossos anos de aposentadoria são ideias ruins. Eles nos chamam para viver de uma maneira que faz este mundo parecer o nosso tesouro. E quando isso acontece, Deus é menosprezado.

Resistindo resolutamente à aposentadoria

Envelhecer para a glória de Deus significa resistir resolutamente ao típico sonho americano de se aposentar. Significa estar tão satisfeito com tudo o que Deus promete ser por nós em Cristo, que nos libertamos dos desejos que criam tanto vazio e inutilidade na aposentadoria. Em vez disso, saber que temos uma herança de satisfação infinita e eterna em Deus, além do horizonte da vida, nos torna zelosos em nossos poucos anos restantes para nos dedicarmos a sacrifícios de amor, não ao acúmulo de confortos.

A perseverança de Raymond Lull

Considere o modo como Raymond Lull terminou sua jornada terrena. Raymond Lull nasceu em uma família rica na ilha de Maiorca, na costa da Espanha, em 1235. Sua vida quando jovem era dissoluta, mas uma série de visões o levaram a seguir a Cristo. Primeiramente, ele entrou na vida monástica, mas depois se tornou um missionário nos países muçulmanos no norte da África. Aprendeu árabe e, depois de voltar da África, tornou-se professor de árabe até os 79 anos. Samuel Zwemer [1] descreve o fim de sua vida assim, claro, de um jeito que é exatamente o oposto da aposentadoria:

“Seus alunos e amigos naturalmente desejavam que ele terminasse seus dias na busca pacífica do aprendizado e no conforto do companheirismo. Isto, no entanto, não era o desejo de Lull…  Nas contemplações de Lull, lemos: 

‘Os homens costumam morrer, oh Senhor, da velhice, da falência do calor natural e do excesso de frio; mas assim, se for a Tua vontade, teu servo não desejará morrer; ele preferiria morrer no brilho do amor, assim como Tu quiseste morrer por ele’.

Os perigos e dificuldades que fizeram Lull recuar em 1291, apenas serviram para o impulsionar novamente para o norte da África em 1314. Seu amor não esfriara, mas queimava ainda mais… Ele ansiava não apenas pela coroa dos mártires, mas também por, mais uma vez, ver seu pequeno grupo de crentes [na África]. Animado por estes sentimentos, ele atravessou para Bugia [Argélia] em 14 de agosto e, durante quase um ano inteiro, trabalhou secretamente entre um pequeno círculo de convertidos que em suas visitas anteriores havia conquistado para a fé cristã…

Por fim, cansado de reclusão e ansiando pelo martírio, saiu para o mercado aberto e se apresentou ao povo como o mesmo homem que haviam expulsado de sua cidade. Foi Elias se mostrando a uma turba de Acabes! Lull ficou diante deles e ameaçou-os com a ira divina, se persistissem em seus erros. Ele implorou com amor, mas falou claramente toda a verdade. As consequências podem ser facilmente antecipadas. Cheia de fúria fanática contra sua ousadia e incapaz de responder a seus argumentos, a multidão o prendeu e o arrastou para fora da cidade. Lá, pelo comando ou pelo menos a conivência do rei, ele foi apedrejado no dia 30 de junho de 1315”.

Assim, Raymond Lull tinha 80 anos quando deu sua vida pelos muçulmanos do norte da África. Nada poderia estar mais longe do sonho americano de aposentadoria do que a maneira como Lull viveu seus últimos dias.

Morrendo para engrandecer a Cristo

Em João 21:19, Jesus disse a Pedro “com que tipo de morte ele iria glorificar a Deus”. Existem diferentes maneiras de morrer, assim como existem diferentes maneiras de viver antes de morrermos. Mas para o cristão, tanto um quanto outro – o final da vida e a morte – devem evidenciar a glória de Deus. Devem mostrar que Cristo – não este mundo – é o nosso tesouro supremo.

Então, envelhecer para a glória de Deus significa usar toda força, visão, audição, mobilidade e recursos que temos para engrandecer a Cristo e servir as pessoas, isto é, buscar trazê-las conosco para o desfrute eterno de Cristo. Servir às pessoas, e não a nós mesmos, como o transbordar do tesouro de Cristo, faz com que Cristo seja engrandecido.

Boas Obras: O resultado de Deus já ser por nós

“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15:10). Meu trabalho duro não é a causa, mas o resultado da graça comprada pelo sangue de Cristo. “Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar” (Filipenses 2:12,13). Trabalhar a sua salvação não é a causa, mas o resultado do trabalho de Deus em nós – Deus é 100% por nós. “Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação” (Romanos 15:18). Se somos capazes de fazer qualquer coisa por meio de obediência, é porque Cristo já é 100% por nós.

Se todo esforço que você faz na disciplina da perseverança é uma obra de Deus, então esses esforços não fazem Deus se tornar 100% por você. Eles são o resultado de ele já ser 100% por você. Ele é por você porque você está em Cristo. Você não pode melhorar a perfeição ou o sacrifício de Cristo. Se pela fé você está em Cristo, Deus é tanto por você em Cristo como ele sempre será ou poderia ser. Você não persevera para obter isso, mas por causa disso, você perseverará.

Então, quando o medo de não perseverar levantar a cabeça, não tente superá-lo dizendo: “Não há perigo, não precisamos perseverar”. Não haverá salvação no final para pessoas que não lutam o bom combate, não terminam a corrida, não mantêm a fé e não aguardam a vinda de Cristo. E não tente superar o medo de não perseverar tentando ganhar o favor de Deus pelos seus esforços. O favor de Deus vem somente pela graça, com base somente em Cristo, em união somente com Cristo, através da fé somente, para a glória de Deus somente. Ele é totalmente e irrevogavelmente por nós por causa da obra de Cristo, se estamos em Cristo. E nós estamos em Cristo não por esforços, mas por recebê-lo como nosso sacrifício, perfeição e tesouro.

Superando o medo de não perseverar

Então, qual é o caminho certo para superar o medo de não perseverar na velhice? A chave é continuar encontrando em Cristo nosso maior tesouro. Essa não é principalmente uma luta pelo fazer, mas uma luta pelo desfrutar. Continuamos a desviar o olhar de nós mesmos para Cristo, sua comunhão comprada por sangue e sua ajuda. O que significa que continuamos acreditando. Continuamos lutando a luta da fé, olhando para Cristo, valorizando a Cristo e recebendo a Cristo todos os dias.

Despedindo-se do medo

Spurgeon diz que Deus despede o medo do envelhecimento com suas promessas. Filipenses 1:6: “Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus”. 1 Coríntios 1:8-9: “Ele os manterá firmes até o fim, de modo que vocês serão irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, o qual os chamou à comunhão com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. Judas 1:24: “Àquele que é poderoso para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria”. Romanos 8:30: “Aqueles a quem ele predestinou, ele também chamou, e aqueles a quem ele chamou, ele também justificou, e aqueles a quem ele justificou, ele também glorificou”. Ninguém é perdido entre a justificação e a glorificação. Todos os que são justificados são glorificados. O objetivo de nos dizer isso é despedir todo o medo. Se Deus é por nós, ninguém pode ser bem sucedido contra nós (Romanos 8:31).

A chave para envelhecer para a glória de Deus

Portanto, a perseverança é necessária para a salvação final e é certa para todos aqueles que estão em Cristo. As obras que fazemos no caminho do amor não ganham o favor de Deus. Elas resultam do favor de Deus. Cristo ganhou o favor de Deus. E nós o recebemos somente pela fé. E o amor é o transbordar e a demonstração dessa fé.

Esta é a chave para envelhecer para a glória de Deus. Se vamos mostrar que Deus é glorioso nos últimos anos de nossas vidas, devemos estar satisfeitos com ele. Ele deve ser nosso tesouro. E a vida que vivemos deve fluir deste Cristo que satisfaz plenamente. E a vida que flui da alma que vive em Jesus é uma vida de amor e serviço. Isso é o que fará com que se veja como Cristo é maravilhoso. Quando nossos corações encontram seu descanso em Cristo, paramos de usar outras pessoas para atender às nossas necessidades e, ao invés disso, nos tornamos servos para satisfazer suas necessidades. Isto é tão contrário ao coração humano não regenerado que se destaca como algo belo a ser seguido ou algo que convence a ser crucificado.

Uma carga para a terceira idade

O que significará envelhecer para a glória de Deus nesta geração? Isso significará uma ruptura radical com a mentalidade de nossos contemporâneos incrédulos. Especialmente uma ruptura com o típico sonho de aposentadoria. Ralph Winter foi o fundador do Centro para Missões Mundiais dos EUA e passou seus primeiros oitenta anos viajando, falando e escrevendo para a causa de Cristo em missões mundiais. Ele escreveu um artigo intitulado “The Trapper Booby Trap” quando ele tinha cerca de 60 anos. Nesse artigo ele diz:

“A maioria dos homens não morre de velhice, eles morrem de aposentadoria. Eu li em algum lugar que metade dos homens que se aposentam no estado de Nova York morrem dentro de dois anos. Salve sua vida e você a perderá. Assim como outras drogas, outros vícios psicológicos, a aposentadoria é uma doença virulenta, não uma bênção… Onde na Bíblia eles veem isso? Moisés se aposentou? Paulo se aposentou? Pedro? João? Os oficiais militares se aposentam no meio de uma guerra?” [2].

Milhões de homens e mulheres cristãos estão terminando suas carreiras formais em seus cinquenta ou sessenta anos e, para a maioria deles, haverá uns bons vinte anos antes de suas faculdades mentais e físicas falharem. O que significará viver esses últimos anos para a glória de Deus? Como vamos vivê-los de maneira a mostrar que Cristo é o nosso maior Tesouro?

A perseverança de Charles Simeon

Quando sofri de câncer de próstata e passei por uma cirurgia aos 60 anos, lembrei-me da experiência de Charles Simeon e orei para que minha experiência fosse semelhante à dele. Simeon era o pastor da Igreja da Trindade, em Cambridge, duzentos anos atrás. Ele aprendeu uma lição muito dolorosa sobre a atitude de Deus em relação a sua “aposentadoria”. Em 1807, após 25 anos de ministério na Igreja da Trindade, sua saúde desabou quando ele tinha 47 anos. Ele ficou muito fraco e teve de deixar seu trabalho. Handley Moule conta a fascinante história do que Deus estava fazendo na vida de Simeon [3].

A enfermidade durou treze anos, com períodos de melhora, até ele completar sessenta anos, e então ele faleceu repentinamente e sem qualquer causa física evidente. Ele estava em sua última visita à Escócia… em 1819 e para sua grande surpresa, assim que cruzou a fronteira achou-se “quase tão perceptivelmente renovado em força quanto a mulher que tocou a bainha das vestes de nosso Senhor”.

Ele havia prometido a si mesmo, antes de adoecer, uma vida muito ativa até os sessenta anos e depois uma ‘noite de sábado’ (aposentadoria!); e agora ele parecia ouvir seu Mestre dizendo: “Coloquei você de lado porque você nutriu com satisfação o pensamento de descansar do seu trabalho, mas agora que você chegou no momento em que prometeu a si mesmo essa satisfação e decidiu, em vez disso, gastar sua força para mim até a última hora de sua vida, eu dobrei, tripliquei, quadrupliquei suas forças, para que você pudesse realizar seu desejo em um plano maior” [3].

Quantos cristãos se concentram em uma “noite de sábado” da vida – descansando, brincando, viajando, etc. – o substituto do mundo para o céu, já que o mundo não acredita que haverá um céu além do túmulo. A mentalidade de nossos contemporâneos é que devemos nos recompensar agora, nesta vida, pelos longos anos de nosso trabalho. O descanso eterno e a alegria após a morte são considerações irrelevantes. Quando você não acredita no céu e não está contente com a glória de Cristo agora, você buscará o tipo de aposentadoria que o mundo busca. Mas que recompensa estranha para um cristão se concentrar! Vinte anos de lazer (!) vivendo nos Últimos Dias com consequências eternas para milhões de pessoas que precisam de Cristo. Que maneira trágica de terminar a última milha antes de entrar na presença do Rei que terminou sua última milha de maneira tão diferente!

A perseverança de J. Oswald Sanders

Quando ouvi J. Oswald Sanders na capela da Trinity Evangelical Divinity School, falando aos 89 anos que escreveu um livro por ano desde os 70 anos, tudo em mim dizia: “Ó Deus, não me deixe desperdiçar meus últimos anos! Não me deixe comprar o sonho americano de me aposentar – mês após mês de lazer, brincadeiras e hobbies, coisinhas bobas, na garagem, reorganizar a mobília, jogar golfe, pescar, sentar e assistir televisão. Senhor, por favor, tenha misericórdia de mim. Me poupe dessa maldição”.

Tornar a grandeza de Deus conhecida às futuras gerações

Essa é a minha oração por você também. Eu concluo com uma paixão e uma promessa. A paixão é o Salmo 71: 18 – uma paixão para tornar conhecida a grandeza de Deus às gerações que estamos deixando para trás: “Mesmo na velhice e com cabelos grisalhos, ó Deus, não me abandone, até eu proclamar seu poder para outra geração, seu poder para todos os que virão”. Oh, que Deus nos conceda uma paixão em nossos anos finais para entregarmos a nós mesmos para fazê-lo parecer tão grande quanto o Senhor realmente é – envelhecer para a glória de Deus.

Nós estamos seguros porque Deus é justo

A promessa: Isaías 46:3-4, “[vocês] a quem tenho sustentado desde que foram concebidos, e que tenho carregado desde o seu nascimento. Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou eu aquele, aquele que os susterá. Eu os fiz e eu os levarei; eu os susterei e eu os salvarei”. Não tenha medo, cristão. Você perseverará. Você vai chegar em casa, mais cedo do que você pensa. Viva perigosamente para aquele que te amou e morreu por você aos 33 anos. Não jogue sua vida fora no sonho americano de se aposentar. Você está seguro porque Deus é justo. Não se contente com nada menos do que o alegre sofrimento de magnificar a Cristo nos seus sacrifícios de amor. E então, no Último Dia, você se levantará e ouvirá: “Muito bem, servo bom e fiel! Venha e participe da alegria do seu senhor!”

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Referências

[1] Samuel Zwemer, Raymond Lull: Primeiro Missionário dos Muçulmanos (Nova York: Fleming Revell Company, 1902), pp. 132-45.

[2] Ralph Winter, “A Armadilha da Reforma da Aposentadoria”, Mission Frontiers 7 (julho de 1985), p. 25.

[3] Handley C. G. Moule, Charles Simeon (Londres: The Inter-Varsity Fellowship, 1948, orig. 1892), p. 125.

John Piper (@JohnPiper) é fundador e professor do ministério DesiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, ele serviu como pastor da Igreja Batista Bethlehem em Minneapolis (Minnesota, EUA). Ele é autor de mais de 50 livros.

Texto original: John Piper. Getting Old for the Glory of God. Desiring God 2007 National Conference. Stand: A Call for the Endurance of the Saints. Disponível em https://www.desiringgod.org/messages/getting-old-for-the-glory-of-god (acessado em 06/04/2019).

Tradução e adaptação: Alexandre Valotta da Silva

Revisão: Miguel Herrera Junior