Como deveria ser tratado, finalmente, aquele que escolhe viver de forma discordante da moral e pessoa de Deus? Ou ainda, o que deveria Deus fazer, ao fim de tudo, com todos os seres humanos, sempre comumente marcados pela falha moral?

Cristo ensinou a existência de uma condenação eterna para o fracasso moral humano (João 3:8; Marcos 9:43-48) Nos tempos atuais, quando o correto é aquilo que é da tendência social, ou do politicamente correto, certamente o inferno é um dos mais recusados ensinos do Evangelho. Mas, isso é movido por conveniência e modismo, e não por um arrazoado embasado.

O renomado filósofo Kant, do século XVIII, descartou a possibilidade de se provar a existência de Deus, mas continuou sustentando a existência de Deus pelo fato que, se a vida e história humana hão de ter sentido, então há a necessidade de uma justiça final e perfeita que só Deus pode aplicar. Quando se depara com os atos de um marcante e terrível perpetrador do mal, o comum é se concordar com Kant.

A incoerência é concordar com Kant enquanto isso for aplicado a outrem. Por exemplo, certamente se diria que Kant está correto ao se considerar alguém como Hitler. Sem uma justiça final e plena, a existência humana é um absurdo. Nem o suicídio dele, com um miserável final de vida, fez justiça a Hitler, quando se foca nos males que ele promoveu e executou. Ele merece o inferno, seria o brado da maioria.

Mas, o comum é esse arrazoado aplicado a Hitler ser rapidamente mudado quando se trata dos males, em atos ou pensamentos, de quem exige tal condenação eterna para Hitler. A incoerência é o projetar de um Deus com duas justiças. Uma perfeita e infalível quando se trata de alguém como Hitler. E outra, diferenciada, para os erros morais de quem deseja justiça eterna para Hitler.

Uma postura comum contra o inferno é o argumento que Deus é todo amor e deve perdoar todos pecadores, isto é, exercer um perdão que seja baseado um mero desconsiderar os erros humanos. Um equívoco dessa posição é ignorar que Deus deixaria de ser Deus se comprometesse a perfeição de sua justiça ao simplesmente relevar o mal do pecador.

Mas, o equívoco maior dessa posição, que anseia que haja perdão disponível para o pecador, é que Deus já a atendeu no amor pleno manifesto na crucificação de Cristo. Deus mesmo, achado na forma humana em Cristo, assumiu a pena e culpa do pecador. Nesse perdão amoroso pela cruz, a moral divina não fica comprometida e nem a perfeita justiça divina é aviltada. Ambas são preservadas. E, ao mesmo tempo, pelo perfeito amor divino, o perdão é conquistado para todo pecador que o busque.

A abrangência do sacrifício de Cristo na cruz cobre qualquer injustiça achada nos humanos. A cruz não deixa nenhum fracasso moral sem a devida penalização e nem sem a possibilidade de perdão. A morte de Cristo na cruz é suficiente para perdoar qualquer pecador arrependido. Então, no final de tudo, a questão não é que Deus envia o pecador para inferno, mas sim que o pecador escolhe ir para o inferno ao dar as costas para o perdão divino em Cristo.

Assim, o perdão mediato por Cristo na cruz, não é algo que se faz por merecer. É dádiva. Justiça ou perdão diante de Deus por merecimento seria uma proposta cruel. O ser humano agonizaria, desejando conquistar tal perdão meritório, mas nunca atingindo a inculpabilidade necessária diante da perfeita e exaustiva justiça divina, mesmo que vivesse infinitas vidas. O fato é que é oferecido o perdão gracioso de Deus em Cristo para todo arrependido que clame por ele.

A questão é se há tal arrependimento e clamor no ser humano. Ninguém estará no céu contra sua vontade. Mas também ninguém estará no inferno contra sua própria vontade. Ainda que o inferno virá a ser, para muitos, a verdade reconhecida tarde demais, ninguém estará lá contra sua própria vontade.

As vezes a recusa desse perdão em Cristo é abertamente obstinada. Mas, o mais comum, é a recusa manifesta por uma atitude de indiferença ou leviandade do individuo para com seu próprio mal. E, geralmente, essa recusa sutil é acobertada por uma moralidade, ou religiosidade, num padrão conveniente.

Entretanto, o crucial é lembrar que o inferno nunca será o caso para quem não o quer. Ele nunca será o caso para quem, arrependido, clame pelo amor de Deus e se refugie no sacrifício gracioso de Cristo. E o mais maravilhoso é que, diferente do inferno pós-vida terrena, a vida com Deus não começa no céu. No perdão em Cristo, a vida eterna, ou vida com Deus, começa já. Um novo modo de viver em paz com Deus.