Quando alguém tenta atrair um gato, ele não vem. Mas se uma pessoa ignorar um gato, ele vem roçar a perna dela. Seja lá o que acontece com os gatos, essa observação sobre eles ilustra o que se dá com a busca da felicidade. Ela se comporta como um gato. Felicidade não é encontrada por quem a busca. Ela aparece para quem não a busca.

O perseguir a felicidade pessoal é o mantra comumente ouvido na atualidade: “Preciso buscar a minha felicidade.” Mas que felicidade? E como se está querendo chegar à tal felicidade?

O ser humano de hoje tem sido caracterizado como “hedonista”, ou, aquele que resume a vida em a busca da felicidade mediada pelo prazer. Mas, como já bem apontou o pensador cristão Michael Horton em um de seus livros, o “estoicismo” é que define melhor o ser humano atual, ainda que tenha aspirações hedonistas.

Tanto o hedonista, como o estoico, objetiva atingir a felicidade. Se o hedonista objetiva a felicidade pelo prazer, o estoico persegue a felicidade através do ficar à parte do mover do mundo. Ficar inerte aos dramas da vida conduz a felicidade, entende o estoico. E, nessa visão, quanto mais autônomo, melhor.

Distinto do estoicismo clássico, há esse estoicismo próprio desta era. Ele interage com o hedonismo. O ser humano atual é avido consumidor do prazer, e por isso é visto como hedonista por alguns. Entretanto, esse ser humano busca o prazer enquanto autônomo. Ou, enquanto estoico. Ele é primeiramente estoico, e depois hedonista. Para ele, o prazer não pode roubar a autonomia dele.

Isso pode ser exemplificado pela prática sexual na atualidade. O sexo casual, ou mesmo os “relacionamentos”, que são equivocadamente denominados de “amor”, são procurados a partir da autonomia estoica. O sexo e o “relacionamento amoroso” envolvendo interdependência são evitados porque sem autonomia não há a felicidade, afirma o estoicismo.

O indivíduo quer sexo, e até relacionamento sentimental, desde que seja preservada a felicidade dele que encontra ao ser autônomo. Ou seja, o estoico atual não é, e nunca será, alguém que ama. Para se amar é preciso aceitar a interdependência. Em tudo isso o estoicismo se confunde quanto a felicidade. Felicidade e autonomia são excludentes.

Felicidade não pode ser um fim em si mesma. Bem como ela não existe em si mesma. E nem é possível a felicidade acontecer no indivíduo voltado para si mesmo. Felicidade é produto encontrado por quem não o objetiva. É como o comportamento do gato. Felicidade decorre do se objetivar o outro, e não a ela. Ou seja, quando o propósito é estar com o outro de forma altruísta e comprometida, surge a felicidade. Felicidade é consequência da interdependência entre pessoas. E isso exige o se dar responsavelmente. Exige respeito, compromisso, tempo e andar junto. Exige o que o estoico rejeita.

O que redunda na felicidade mais sublime é a suprema dependência de Deus. Ela vem àquele que objetiva o andar compromissado com Ele. Felicidade decorre do ter prazer em Deus. E Deus já deu o passo dele, em Cristo, na direção de um andar junto. Cristo é o convite de Deus para um viver em harmonia com Ele. E isso é mediado pelo perdão imerecido, portanto, gracioso, propiciado em Cristo. A felicidade maior é produto do andar com Deus. E esse andar com Deus conduz aos relacionamentos humanos na forma recomendável, bem distinta da estoica. E esses relacionamentos produzem felicidades afeitas a eles.