O ser humano atravessa sua existência neste mundo como um Dr. Kimble, personagem da série de TV intitulada “O Fugitivo”. Ela foi sucesso em 1963-67, e depois foi adaptada para um filme em 1993. Na série televisa o Dr. Kimble é condenado à morte pelo assassinato de sua esposa. Ele se diz inocente e quer provar isso. No caminho para a penitenciária o trem que o conduzia descarrilha e Dr. Kimble foge.

E aí a saga começa. O policial Gerard se coloca no constante encalço do Dr. Kimble, que é então empurrado para uma fuga sem fim, sempre pressionado, podendo permanecer por breve tempo em cada cidade a que chega. Na Bíblia, a narrativa de Gênesis informa que, logo após seu primeiro ato de pecado no Jardim do Éden, quando decidiu ter uma vida autônoma de Deus, rompendo com Ele, o ser humano tentou fugir e se esconder de Deus (Gn 3:8). À semelhança do Dr. Kimble, essa saga humana iniciada no Éden, infindável e deletéria, permanece até hoje. E é uma experiência muito destrutiva.

A fuga é as vezes manifesta numa assumida negação de Deus. Porém, ela também acontece nas muitas formas religiosas com suas propostas de se tratar com Deus nos termos e entendimentos humanos, domesticando e manipulando Deus conforme a vontade, métodos e recursos humanos. É o caso das diversas religiões humanas. E, tristemente, a fuga também se dá por paliativos e anestésicos diversos, indo do entretenimento, como a festa e viagem, até por meios como as drogas ilegais ou legais, incluindo o álcool.

A exceção dessa fuga é achada numa minoria que a interrompe. Essa minoria inclui um personagem de dez séculos antes de Cristo – o rei Davi. No Salmo 139, no verso 7 (Bíblia), ele perguntou a Deus: “Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?” São duas perguntas retóricas. Elas não estão realmente indagando, mas usando a indagação para fazer uma afirmação – não há para onde fugir de Deus. Davi chega a paz com esse fato.

Antes de chegar a essas perguntas nesse Salmo, o autor reflete sobre a realidade de Deus e do ser humano diante dele: “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos são bem conhecidos por ti.” É o Deus do conhecimento absoluto.

Não há fato que Deus desconheça e não há lugar em que Ele não esteja. As empresas de investigação dizem que atualmente é possível se traçar os passos de qualquer pessoa inserida na sociedade desenvolvida. Isso se consegue unindo informações do cartão de crédito, notas fiscais, navegação na internet, imposto de renda, câmeras de vigilância, radares de trânsito, pedágios automáticos, etc. Se o conhecimento tecnológico humano pode conhecer tanto sobre a privacidade de uma pessoa, Deus certamente conhece plenamente.

Conhecer a si mesmo não acontece através de uma autorreflexão. E nem por racionalizações diante de um terapeuta. O coração humano é por demais enganoso, manipulador, tendencioso e profundo. Por isso somente Deus pode fornecer à pessoa o conhecimento de si mesma. O autor do Salmo acima sabia bem disso. E ele orou: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; … e conhece as minhas inquietações. Vê se minha conduta algo te ofende…” Ao se encontrar com Deus, de alma aberta, tudo é exposto. Incluindo tanto as inquietações como aquilo que ofende a Deus. Tanto os distúrbios emocionais-psicológicos como os erros morais.

O salmista clama: “conhece o meu coração… e dirige-me pelo caminho eterno.” Na língua original desse salmo, o Hebraico, o verbo “conhecer” é usado para a condição que vai além de apenas se saber uma dada informação. O verbo envolve o saber numa dimensão relacional. Ser conhecido nesse contexto é entrar num relacionamento. E todo relacionamento verdadeiro exige um conhecer. E o grau desse relacionamento depende do grau do conhecer.

Rompendo com a fuga, o salmista quer ser conhecido por Deus. Ele quer ser conhecido não apenas para ter suas misérias expostas, mas também continuar conhecido por Deus, num relacionamento eterno sob a direção de Deus – “Guia-me pelo caminho eterno. Ser conhecido por Deus é se encontrar com aquele que é gracioso, perdoador e restaurador. Por isso o caminho eterno é possível.

Esse é o Deus revelado em Jesus Cristo, aquele que vai até a cruz. A gravidade do sacrifício do justo na cruz, no lugar do injusto, torna conhecida a verdadeira condição humana diante de Deus. Mas isso para propiciar, por essa morte de cruz, o perdão absoluto, colocando o fugitivo arrependido no caminho eterno com Deus. Uma vida radicalmente e maravilhosamente diferente. Jesus Cristo, Deus feito homem, afirmou algo que nenhum ser humano jamais afirmou, e nem o poderia fazer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai (Deus) se não for por mim.” (João 14:6)