A perspectiva de vida da antiguidade se tornou muito atual: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. (Bíblia, I Co 15:32). Essa é a mensagem que permeia a mídia e sociedade. E a maioria das pessoas a acataram. Mas, segundo essa máxima, nenhum prazer pode apagar o absurdo a que a vida é reduzida: “amanhã morreremos.” Se o pensamento for lucido e honesto, essa conclusão acaba com o clima para qualquer prazer.
Quatro séculos antes de Cristo, Platão reportou que seu mestre Sócrates afirmou: “A vida não examinada não é digna de ser vivida”. Isto é, é preciso se ter consciência do que é a essência da vida e o que a está empurrando. Depois de identificar esse valor central, é necessário avaliar se o que se assume como essência da vida é um valor que dá uma razão justificável e sábia para se viver. E isso exige testar esse valor com “o amanhã morreremos.”
Se a razão e essência da vida se resumem aos prazeres mundanos, e eles são buscados no agora com a motivação que se morre amanhã, então viver é viver para o nada. É viver com um vazio que nunca é preenchido, até que chegue o vazio do fim, o derradeiro e mais angustiante dos vazios.
Sócrates lançou mais luz sobre esta questão ao concluir que “maus homens vivem para que possam comer e beber, enquanto que bons homens comem e bebem para que possam viver”. Ou seja, para uns o fim da vida são os prazeres. E para outros prazeres são apenas elementos dentro de um propósito além deles.
São duas atitudes que Sócrates aponta terem naturezas opostas: “maus” e “bons.” Isto é, a ética do individuo depende do que ele adotou como essência e propósito do viver. Se os prazeres mundanos são a razão maior do viver, então é inevitável que o ser humano se afunde no egocentrismo, banalidade e imoralidade.
Essa entrega aos prazeres leva a destruição. As pessoas se tornam vazias, desestruturadas e bestiais quando tudo se resume a corrida do sexo, finanças, poder, diversão, embriaguez e outras drogas. É o domínio do mal. Indo além Sócrates, e escapando dessa rota do mal, é preciso destronar o prazer como a razão do viver. Isso não significa eliminar o prazer, mas o administrar debaixo de um princípio maior e mais sublime. Valor esse, transcendente, que seja legítimo e adequado para a missão de governar as direções do coração e, então, da vida.
O bem-sucedido rei Salomão, séculos antes de Cristo, relatando a entrega dele aos prazeres, declarou: “Não me neguei nada que os meus olhos desejaram.” (Bíblia, Ec 2:10) Passados os anos, refletindo a vida, ele ofereceu a seguinte advertência: “Alegra-te, jovem, na tua juventude e se recreie o teu coração… anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá conta… Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude…” (Eclesiastes, 11:9 – 12:1).
A vida realizada, segundo Salomão, é a vida que “lembra do… Criador” antes e acima da entrega libertina aos prazeres. A vida construída debaixo dessa premissa transcende o beco sem saída do “comamos e bebamos, que amanhã morreremos.” Em 1647 o parlamento inglês aprovou o “Catecismo de Westminster”. O catecismo lança luz sobre a essência da vida perguntando: “Qual é o fim último do ser humano?” E o catecismo então responde: “O fim último do ser humano é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre.”
Quando Deus, o eterno prazer, se torna o propósito da vida, o vazio advindo da fugacidade dos prazeres, bem como a consequente destruição deles, são eliminados. E, o supremo prazer eterno em Deus administra os prazeres terrenos. Se estabelece uma referência que orienta sobre que prazeres buscar, como se desfrutar deles e que dimensão dar a eles.
E essa verdadeira satisfação da vida – prazer em Deus – é possibilitada em Cristo. Através da morte substitutiva na cruz, em Cristo é mediado o perdão e reconciliação com Deus. E então uma transformação da perspectiva e modo de viver. Por isso Cristo declarou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (Bíblia, João 10:10)