“O importante é que emoções eu vivi”. Assim conclui a música de Roberto Carlos. Mencionando dramalhões românticos que alguém possa experimentar, a música enfatiza que o importante é a emoção, independente das consequências. O sentimento é supremo e é a essência do viver. Tocando na faceta romântica da vida, essa música ilustra bem o que veio a se tornar o ser humano na sua totalidade. Um ser regido pela afetividade. Um sentimentalista.

No livro “Immortality”, o escritor checo Milan Kundera, radicado na França, identifica acertadamente o atual ser humano como “homo sentimentalis”. Kundera diz que o resultado do novo formato foi “um homem que elevou os sentimentos à categoria de valor. Assim que os sentimentos são vistos como “valor”, todos querem sentir. E, porque todos nós nos orgulhamos de nossos valores, nós temos a tendência de nos tornar exibidos quanto aos nossos sentimentos.”

Tornando-se um “homo sentimetalis”, o ser humano também passou a entender todo o universo à sua volta como algo sentimental. A palavra de ordem é afetividade, indo do marketing ao direito. Fala-se em direitos afetivos, computação afetiva, culinária afetiva, capitalismo afetivo, etc. Se a afetividade tem seu lugar no ser humano e no seu universo, o extremo de reduzir o ser e existência à afetividade entra no caminho desastroso de redefinir a identidade humana – um “homo” meramente “sentimetalis”.

O surgimento dos termos “heteroafetividade” e “homoafetividade” é uma ilustração gritante que aponta como a redução afetiva destronou a objetividade moral para abraçar a subjetividade sentimental. Isso transtornou o ser humano e seu universo. Essas novas categorias comportamentais afetivas implodem, por exemplo, o matrimonio. Quando algo se torna qualquer coisa que a emoção do indivíduo deseja que seja, esse algo nada é. Assim está, atualmente, o matrimonio quando tratado a partir da afetividade.

Relacionamentos não se enquadram mais na categoria de uma entidade moral objetivamente necessária, superior e sublime, como se definia o matrimonio. Relacionamentos são apenas um perseguir de definições e formas estabelecidas pela afetividade imediatista e transitória do indivíduo. Nesse mar, matrimonio é tudo e nada.  Considerando quão basilar é o matrimonio para a formação humana, é inevitável se concluir que um enorme estrago se inicia, rumando a um futuro muito preocupante.

O pensamento que formulou o “homo sentimentalis”, tomou conta da universidade, virou doutrina na escola, formatou a mídia, encurralou o direito e contaminou a massa social. O bombardeio midiático e artístico é intenso e pouquíssimos conseguem fazer a crítica e resistir.

Até o denominado universo evangélico, na sua maior parte, naufragou no mar do sentimentalismo. O religioso, transformado em um consumidor, não busca o fundamento bíblico objetivo. Ele busca a “igreja” cuja liturgia o faz se “sentir” bem, e as vezes procura aquela que apenas o faz “sentir”. E isso de forma imediatista, numa viagem emocional. Fé virou mero sentimento, desprovido de conteúdo objetivo que separa o que é e o que não é. O comum é o desprezo da reflexão e entendimento da profundida da fé cristã, preferindo-se o emocional e superficial.

Enfim, a maior parte da sociedade está com a visão embaçada, entendendo que o valor supremo é o desejo emocional. A saga é o ser humano perseguir a auto expressão afetiva em primeiro lugar e a todo custo. Ele se entrega e se define nessa esgotante e frustrante peregrinação. É a busca de se autenticar, como ser, pela mediação da afetividade e sentimentos. Algo impossível de conduzir à satisfação. E assim se caminha pela estultícia que sempre destrói.

Nessa busca e peregrinação, o ser humano tritura valores fundamentais indiferente quanto ao que está destruindo, concentrando-se apenas em entronar sua afetividade. Alguém já alertou que, antes de remover uma cerca de um dado local, é sábio perguntar porque ela foi construída e colocada naquele lugar. Mas a afetividade segue violando irrefletidamente todos limites sábios.

O novo credo moral-sentimental rege que não há limites. Se se sente “bem” (algo sem critério objetivo), então faça. Deve ser esquecido a objetividade moral, o norte que antes se alocava acima da afetividade. Deve ser desprezado o critério objetivo e lucido que iluminava a prudência, ou, o ponderar a consequência. Conclusão, restou total entrega à subjetividade do sentir “bem” imediatista.

No livro “A Abolição do Homem”, escrito em 1943, o autor C. S. Lewis, lecionando no ambiente vanguardista da Universidade de Cambridge, anteviu o que estava por vir. Ele apontou o surgimento do “homem sem peito”. É o homem movido pelas suas entranhas. É o homem que não é movido pela bravura de assumir os valores morais objetivos, sejam eles convenientes ou não. Reportando-se a ética clássica e a cristã, Lewis ilumina o caminho a seguir lançando mão do conhecimento milenar.

Essa luz indica que há o que deve ser amado e o que deve ser desprezado, independente da afetividade. O “homem com peito” abraça os ideais que devem ser amados porque são objetivamente corretos. E subjuga seus sentimentos ao crivo desse critério, negando-se o que for um valor objetivamente desprezível, ainda que esse valor seja afetivamente atrativo. Esse é o caminho de e com Cristo. “Santifica-os na verdade, a tua Palavra é a verdade.” (João 17:17)