Celebrados em abril, Páscoa e Inconfidência são memoriais de dois martírios pela liberdade, com realizações e conclusões distintas.

Em 1789, na cidade de Vila Rica, surgiu um movimento que almejava transformar Minas Gerais num país de governo republicano separado da colônia Brasil. Por ser um rompimento com Portugal, o movimento foi denominado de “inconfidência”, ou seja, infidelidade.

Os revolucionários do movimento estavam profundamente inconformados com os pesados impostos portugueses. Ainda que Tomás Gonzaga fosse o ideólogo do movimento, Joaquim José da Silva Xavier era o participante mais carismático e líder. Além de minerador e militar, Xavier era dentista prático, por isso o apelido “Tiradentes”.

Séculos antes de Tiradentes, apareceu Jesus, “o Cristo”, anunciando libertação para toda humanidade, mas não política. Como os seres humanos são moralmente falhos, eles estão amarrados ao pecado. E por isso, estão desacertados com Deus e também culpados diante da justiça de Deus. Assim, são perturbados, vazios e destituídos de propósito eterno. Então, Deus mesmo, em Cristo, substitutivamente na cruz, tomou sobre ele a pena da culpa do ser humano, possibilitando um perdão gracioso e imerecido.

Essa obra de Cristo, morte de cruz, é eficaz porque culmina na vitória eterna da ressurreição. Essa obra é a “Páscoa”. Ou seja, conforme o significado hebraico do termo, é o “passar por cima” livrador.

Tiradentes não intencionava morrer. Ele lutou esperando conquistar em vida a liberdade política. Inclusive, ele seria encarregado de deportar o governador português, ou, de matá-lo, trazendo a cabeça do governador para Vila Rica. Porém, Tiradentes e companheiros foram presos, frustrando a expectativa deles. Ele foi enforcado em 1792, sendo sua cabeça exposta em Vila Rica. E assim todo projeto foi aniquilado.

Cristo veio justamente para morrer e ter o seu corpo exposto na cruz, suportando a vergonha do pecado que não era dele. Ele se deu voluntariamente em sacrifício. Cristo disse: “… é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna”. (João 3:15). E depois de ter cumprido o necessário, deixando para sempre a cruz, Cristo ressuscitou triunfalmente, realizando a Páscoa.
Os colaboradores da Inconfidência e Tiradentes erraram ao se descuidarem no divulgar do plano de rebelião. E, Tiradentes foi quem mais assim fez ao ir abertamente a quartéis para aliciar soldados.  E mais, o movimento fracassou porque teve pelo menos três delatores, sendo o principal Joaquim Silvério dos Reis. Todos revolucionários foram presos.

Cristo, oportunamente, propagou abertamente sua morte. A morte dele não foi uma frustração ou acidente de uma delação. Ele previu: “Um de vocês me trairá.” (Mateus 26:20) Judas foi o delator de Cristo, mas isso em consonância com o plano pré-estabelecido. A delação de Judas visava a derrota, porém, resultou em triunfo.

Tiradentes, surpreendido com a ordem para sua prisão, tentou fugir. Ele estava no Rio de Janeiro quando soube que a inconfidência havia sido descoberta. Fugiu através de atalhos para Minas Gerais. E se escondeu na casa de um dos conspiradores. Ali foi detido pelos soldados reais.

Cristo sabia a hora e realidade de seu sacrifício. Enquanto esperava sua prisão, agonizou sobre a culpa humana que suportaria, orando no Monte das Oliveiras. Depois, resoluto, Cristo concluiu: “Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores.” (Mt 26:45)

Entusiasmado com a luta e proclamação da Independência que se dera nos Estados Unidos, Tiradentes se equivocou ao pensar que o povo brasileiro, à semelhança dos norte-americanos, iria à luta. Ele procurava mobilizar o povo provocando que a indolência dos brasileiros, ao não reagirem como os norte-americanos, indignava as nações.

Cristo veio para uma libertação que não dependia da mobilização e ação da humanidade. Condenados, os seres humanos nada poderiam fazer. Somente Deus em Cristo, sozinho, poderia conquistar a libertação. Ela é única. Como afirmou o apóstolo Pedro: “… Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus.” (I Pedro 3:18)

Tiradentes visou uma liberdade política. Uma liberdade legítima e beneficial, mas limitada. Aliás, se a Inconfidência fosse vitoriosa, seria na história do Brasil, o movimento que mais romperia com o modelo político-social da colonização. Porém, transformaria apenas essa dimensão.

Tiradentes sugeriu que na bandeira da nova república se colocasse um triângulo. Muitos entendem que o triangulo se refere a trindade maçônica. Porém, como Tiradentes mesmo falou em “Santíssima Trindade”, o mais indicado é se ver o triangulo como símbolo da Trindade cristã – a forma como Deus se revela na Bíblia. Ainda que possivelmente o Deus-Trino tenha sido invocado, a causa de Tiradentes era humana, temporal e política.

Cristo veio numa missão divina. Assim, possibilitou uma liberdade espiritual, eterna e holística, propiciando o encontro com Deus. Na manifestação trina, Cristo é a própria manifestação solidaria e graciosa de Deus. E trouxe uma libertação que modifica todas as áreas da pessoa. E se ela impactar uma representatividade significativa, poderá surgir a partir dela, temporalmente, uma sólida liberdade político-social.  

“Libertas quae sera tamen” é uma frase do poeta Virgílio, colocada na bandeira inconfidente, por sugestão de Alvarenga Peixoto, cuja tradução é “Liberdade ainda que tardia.”. Diferentemente, a liberdade em Cristo, além de ser única, holística, eterna, ela não é tardia, mas certa e imediata: “Portanto, se o Filho (Cristo) os libertar, vocês de fato serão livres”. (João 8:36, Bíblia)