Diante da questão sobre o que seria o oposto do amor, a resposta comum é bem conhecida: o ódio. É verdade que, quando consideramos as manifestações do amor, as expressões de ódio diferem profundamente do amor. Porém, o ódio não atinge o grau maior de contraposição ao amor, apesar de sua expressão em geral ser muito gráfica. O ódio se distingue do amor, mas é outra a atitude radicalmente oposta ao amor.

É preciso lembrar que o amor é muito mais que a atração ou sentimentalismo por algo ou alguém. Amor é valorizar e dignificar o que é amado. E isso se tem como fundamento o ter em alta consideração o amado. Quando um ser humano ama outro ser humano, ele deseja a melhor experiência de ser e viver para o amado, dedicando-se em prol do amado. Amar é, acima de tudo, afirmar que o outro é apreciado e valorizado como um ser significativo e relevante para quem o ama.

Essa dimensão do amor não é plenamente esvaziada pelo ódio, por mais terrível que ele seja. O ódio almeja atingir o outro, mas ação de odiar, ainda que cause muito estrago, não nega a relevância do outro. Aquele que é objeto do ódio tem alguma importância aos olhos de quem o odeia. Aliás, essa é a razão porque alguém se dá ao trabalho de se desgastar expressando seu ódio. Por pior e mais errado que seja o ódio, ele reconhece, ainda que de forma torpe, o outro.

O oposto absoluto do amor é a indiferença. Quando um ser humano se torna indiferente para com o outro, isso significa que o outro se tornou nada para ele. É como se o outro não existisse ou fosse desprovido de qualquer valor ou relevância enquanto ser. Na dimensão da indiferença o próximo pode ser simplesmente ignorado ou descartado. A indiferença manifestada em toda a sua intensidade é a maior agressão ao próximo. A indiferença é a contraposição absoluta ao amor. É por isso que muitos escolhem expressar seu ódio através da indiferença.

O relacionamento com Deus é primeiramente na dimensão do amor. Cristo disse: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração…” (Mt 22:37). Alguns odeiam a Deus por razões diversas, como decepção, frustração e amargura. Mas a verdade é que os que odeiam a Deus pertencem a uma minoria. A grande maioria das pessoas não tem nenhum ódio para com Deus. E nisso parecem ser mais nobres ou dignas diante de Deus.  Mas não são. E não são porque, se não odeiam a Deus, elas o tratam com indiferença. Deus é irrelevante para elas.

O terrível engano de alguns é afirmarem Deus na teoria, mas a prática de vida deles revela que são indiferentes para com Deus. Isso é evidente quando a existência e verdades de Deus não têm nenhum impacto na formulação das escolhas e valores no dia a dia. E assim é também quando não há interesse e tempo para a busca das verdades de Deus nas Escrituras Sagradas a fim de acata-las. Como as Escrituras dizem, “… tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus…” (Rm 1:21).

Deus tem reagido a essa terrível atitude da indiferença humana.  Ele reage porque essa indiferença desestrutura e desoriente o ser humano. O amor dele não poderia ficar indiferente a triste realidade humana. Grande é o vazio e culpa. Em Cristo, Deus retribui a indiferença humana com o amor dele. E o faz com o maior amor da história. Em Cristo, na morte de cruz, Deus toma sobre si a culpa da indiferença e as decorrentes falhas morais e vazio. Ele perdoa essa detestável indiferença e convida para um relacionamento eterno de amor. Uma vida com significado e propósito eternos.

Somente responde ao amor de Deus quem enxerga o peso e consequências de sua história de indiferença para com Deus. Quem responde pertence uma minoria que, humildemente, clama pelo perdão amoroso da cruz. É o lavar e restaurar da alma. Abençoado é aquele que pode ver a gravidade de sua indiferença. Em Cristo, ele passa a amar a Deus através de uma vida toda construída à volta das verdades e existência de Deus. É uma vida cheia de significado eterno, paz e esperança.