O renomado psicólogo norte-americano William Marston, perguntou a 3.000 pessoas: “Para que você vive? ” E 94% respondeu que suportava o presente aguardando algo no futuro. Isso denota que o comum é não se ter uma vida de verdade, pois a razão do viver está sempre num por vir. Então, para a maioria, o viver é uma constante ilusão futurista.

Diante dessa forma comum de se viver, o autor do livro de Eclesiastes, lá na antiguidade, estava correto ao denunciar: “Que grande inutilidade! Nada faz sentido! ” (Bíblia, Ec 1:2). Esse livro foi escrito em Hebraico, e nessa língua o termo “inutilidade” tem a raiz etimológica do “vapor”. Algo muito volátil e que logo se esvaece.   E o autor falava com propriedade porque tinha tido condições de desfrutar de tudo numa vida longa, bem como tinha tido o privilégio de adquirir um cabedal cultural amplo.

Enfim, concordando com Eclesiastes, a vida é dramaticamente descrita por Macbeth, na peça de Shakespeare. Depois de ter conquistado e desfrutado da coroa Escócia, Macbeth fica sabendo da morte de sua esposa e também que seu castelo está cercado por seus inimigos. Então Macbeth exclama: “A vida é uma sombra ambulante… um pobre ator… É uma estória contada por um idiota. Cheia de fúria e som, mas nada significando. ”

Se a vida está resumida apenas à dimensão que o autor de Eclesiastes define como “debaixo do sol” (Ec 1:3), então ela é fugaz, repetitiva e vazia. O texto lembra que “Gerações vêm e gerações vão… Todas as coisas trazem canseira… o que foi feito se fará novamente…” E ainda, ele aponta que o ser humano nada ganha realmente com o seu trabalho quando se considera a última instancia a que a vida está destinada (Ec 1:3-11). O fato é que, conforme o Eclesiastes alerta, “debaixo do sol” tudo se reduz a inutilidade.

Nietzsche, o filósofo anti-Deus, afirmou que quando alguém tem um “porquê” viver, essa pessoa pode enfrentar quase todo “o que”. Isto é, se o ser humano tiver um propósito que justifique o viver, ele enfrentará qualquer situação. O problema com Nietzsche é que ele enfatizou a vontade do viver e ser, mas, negando qualquer dimensão transcendental, ou seja, Deus. Assim, sua ênfase quanto a se ter um “porquê” para a vida, ou um proposito, ficou reduzida a vontade pela vontade. Isto é, reduzida à apenas a realidade “debaixo do sol”.

Mas outro pensador, Victor Frankl, conhecedor dessa colocação de Nietzsche, levou essa questão um passo adiante. Ele foi um psiquiatra austríaco-judeu que atravessou o inferno do campo de concentração nazista. Depois de liberto, ele se ocupou a cadeira de psiquiatria na Universidade de Viena, como Freud. No entanto, Frankl propôs uma visão do estruturar da personalidade que diferia totalmente da “Psicanalise” de Freud, e da posterior “Psicologia Pessoal” de Adler. Por isso a proposta de Frankl é conhecida como a “terceira escola vienense de psicoterapia”, e é identificada como “Logoterapia”.

A “Logoteratia” de Frankl é bem exemplificada em seu livro “Man´s Search for Meaning” (A Busca do Homem por Significado). A “Logoterapia” nasceu da observação de Frankl no campo de concentração, um laboratório muito realista que Freud não conheceu. Frankl notou que quem sobrevivia era quem focava em algo sublime e que transcendia a degradação daquela prisão. A conclusão de Frankl foi que a personalidade humana se estrutura somente se a pessoa tiver um propósito que transcenda e motive o viver.

Enfim, o ser humano precisa ter um propósito que dê significado para a vida “debaixo do sol”, ou então a vida se reduz a uma “inutilidade”.  No entanto, Eclesiastes informa lucidamente que esse significado não será achado “debaixo do sol”. É preciso um propósito capaz de dar significado a uma realidade repetitiva e fugaz, “debaixo do sol”, que em si não provê significado. Então é preciso encontrar um propósito sublime que transcenda o repetitivo e fugaz. Sendo assim, a conclusão é que, esse propósito capaz de dar significado a labuta do viver, será achado somente “além do sol”.

Por isso o livro de Eclesiastes, depois de muito analisar a realidade da existência humana, adverte no seu final: “Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis…” (Ec 12:1). Mas quem vai lembrar disso na inebriante roda-viva da vida? Tony Campolo, pastor da Igreja Batista e um sociólogo que lecionou por muitos anos na Universidade da Pensilvânia, fez uma pesquisa relevante. Circulando por diversas casas de repouso, consultou diversos idosos na faixa dos 95 anos de idade. Ele perguntou: “O que você faria diferente se fosse viver novamente? ” Dr. Campolo triou as respostas em duas propostas: “Gastaria mais tempo em reflexão e investiria mais naquilo que vai além da vida”.

Ninguém começou ainda viver até que tenha encontrado o propósito transcendente, não importa quão ocupada e agitada seja a vida. É preciso parar e encarar corajosamente a pergunta: “Para que estou vivendo? “ Feliz é aquele que conseguir saltar da roda-viva e abrir espaço para refletir sobre o propósito e significado de sua vida. E assim ser levado a definir sua vida como primeiramente uma existência vivida, no todo, com e para o eterno Deus, e isso no emocional, relacional, familiar, material, profissional e lazer.

Mas como encontrar e viver com esse Deus transcendente? Deus se tornou acessível e conhecível em Cristo. E em Cristo proveu um caminho para o perdão, possibilitando uma nova existência, na dimensão eterna, com Ele e para Ele. Por isso Cristo afirmou: “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. ” (João 10:10) O viver começa realmente somente a partir de um encontro com Deus, e um render-se para uma vida voltada ao propósito do eterno Deus.