No filme “Amadeus” de 1984, sobre acontecimentos do século XVIII, Salieri é um músico que na sua juventude dedicara seu talento a serviço de Deus. Mais tarde ele teve contato com a música de Wolfgang Amadeus Mozart. Ficou muito impressionado com a beleza dela. Posteriormente Salieri teve a oportunidade de conhecer Mozart e ouvi-lo conduzir sua música privilegiada.

Porém, Salieri ficou desapontado com Mozart. Ele se deparou com um jovem de comportamento leviano, imoral e irreverente. Salieri se encheu de inveja. Ele entendia que Deus não poderia ter dado a ele, que se dedicara a servir a Deus, apenas um talento razoável, enquanto ao imoral Mozart, Deus concedia um talento extraordinário.

Salieri tentou de muitas maneiras sabotar Mozart. E a inveja tanto amargurou Salieri que, na morte prematura de Mozart, ele encenou que ele havia assassinado Mozart. Encenação essa que foi logo desmascarada. Salieri tentou suicídio e terminou seus dias idoso e amargo numa instituição para inválidos, consumido pela inveja.

Sócrates expressou bem ao dizer que “a inveja é a filha do orgulho, a autora de assassinatos e vinganças, a iniciadora de subversões, e o tormento permanente da virtude. Inveja é a gosma suja da alma, um veneno, um tóxico, um corrosivo que consome a carne e seca os ossos.” O monge João de Damasco, do século VIII, definiu: “a inveja é descontentamento com as bênçãos do outro.” Invejar é ser dominado pelo outro. É uma forma de idolatria.

Essa miserável atitude viceja comumente nos corações humanos. Grande parte dos empreendimentos e compras é movida pela inveja. Aliás, o marketing explora a inveja. É comum ela perturbar relacionamentos próximos. Inveja é em geral sutil e camuflada. As pessoas comentam os seus pecados, inclusive de forma rompante. Porém, dificilmente alguém revela sua inveja.

Restrita a esfera íntima, ela produz outros produtos que vêm à tona: inimizades, assassinato, perseguição, desconsideração, disputas, críticas, falsidades, calúnias, etc. Além de a inveja poder provocar ações que prejudicam o invejado, ela sempre danifica o invejoso, como no caso de Salieri que acabou descobrindo isso penosamente.

“Se vocês abrigam no coração inveja amarga… não se gloriem disso… é demoníaca… onde há inveja… aí há confusão e toda espécie de males.” (Bíblia, Tiago 3:14-17) Assim a Palavra de Deus denuncia a inveja. A vida cristã considera a inveja como um mal repugnante. E a vida cristã tem recursos para lidar com ela. A inveja é descartada pelo meio da neutralização. Entenda esse poder neutralizador. Ele vem do acerto com Deus.

O ser humano se reconcilia com Deus quando reconhece que é pecador e clama pelo perdão pleno propiciado e mediado por Cristo na cruz. É o reconhecimento de sua condição de pecador culpado e que Cristo morreu a morte do pecador. Assim, quando o indivíduo se torna Cristão, ele morre, pela fé, com Cristo. E nasce para uma nova vida com Deus e para Deus. O indivíduo passa a reconhecer que o centro da vida não é mais ele, e nem o próximo, mas Deus. Na cruz acontece a descentralização do “eu” humano.

Então, vivendo à volta e debaixo de Deus, surge a possibilidade de se interagir com consideração, humildade e contentamento. O foco do cristão é servir a Deus fazendo o melhor que pode com todas as potencialidades e oportunidades que lhe forem concedidas, desfrutando com alegria de sua própria vida e conquistas.

Igualmente, o cristão respeita e se alegra com o próximo nas conquistas dele. E, se notar que as conquistas do próximo foram por meios tortos, ou que são usadas para exibicionismo e manipulação, o cristão jamais deseja essa condição para si mesmo. E deixa as conquistas e atitudes torpes alheias nas mãos da justiça de Deus. Assim vive o liberto da inveja. É maravilhoso estar sob o domínio de Deus e não dos outros.