Jesus desfilou no carnaval 2020, essa é uma verdade se nos basearmos pela Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. A alegoria e o samba enredo dela foram sobre Jesus. Porém, com base no Evangelho, é impossível Jesus desfilar no carnaval.

Colocar Jesus Cristo no desfile carnavalesco seria como colocar uma passista, na sua indumentária ínfima, rebolando e liderando o louvor e adoração de um culto cristão. Algo que avilta a dignidade da criatura e plano de Deus. Jesus ficaria indignado. Obviamente a passista é apenas um ícone, o carnaval é muito mais. Uma passista num culto teria que ser enquadrada em uma de duas alternativas, ou a passista estaria ali para subverter o culto e os valores dele, ou, ela estaria ali para ser transformada, isto é, ser subvertida, enquanto passista, pelo culto e a mensagem dele. Ou uma, ou outra, mas nunca uma síntese.

Semelhantemente seria Jesus no carnaval. Ou Jesus subverte o carnaval, ou o carnaval subverte Jesus. A síntese é impossível. Carnaval e Jesus são antagônicos. A tentativa de síntese, conforme a esforço de alguns e do samba da Mangueira, é um acobertar da segunda alternativa – Jesus subvertido.

Quem é esse Jesus no carnaval, segundo o samba da Mangueira? É o Jesus da dinâmica oprimido versus opressores, ou, vítimas versus agressores. Assim canta o Jesus do samba – “…Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher. Moleque pelintra no buraco quente. Meu nome é Jesus da Gente… Porque, de novo, cravejaram o meu corpo, os profetas da intolerância…” E canta mais: “Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira… Procura por mim nas fileiras contra a opressão”.

É o Jesus a serviço da ideologia neomarxista. O Jesus da síntese. Na ideologia o mundo se divide simplesmente entre oprimidos e opressores. E a essência da problemática moral humana se reduz a esse binômio, mas tendo os dois termos uma definição própria dessa ideologia. Há “opressões” prediletos e há os desconsiderados. Os que leem o Evangelho contaminado pela ideologia, entendem que pecador é aquele que for categorizado como “opressor”. E pecado se reduz apenas à “opressão” neomarxista. E, nesse contexto, quem defende a opressão é “profeta da intolerância”.

O Jesus dos Evangelhos não se alinha com esse embate moral simplista. Jesus é contra o mal em toda as suas consequências. Ele se opõe a tudo o que conflita ou discorda do caráter de Deus, conforme revelado nas Escrituras. O Jesus do samba levanta uma pergunta: “Porque, de novo, cravejaram o meu corpo, Os profetas da intolerância…” Nos termos do Evangelho, é preciso modificar a pergunta, e assim questionar: Porque o corpo de Cristo foi cravejado, ou, crucificado, no gólgota?

É infiel ao Evangelho uma redução simplista afirmando que Jesus foi crucificado unicamente devido a tensão neomarxista de “oprimido e opressores”. Isso torna pequena a morte de Jesus. Jesus foi a cruz por causa do basilar e abrangente mal. Ele foi a cruz devido a esse opróbio comum a todos os seres humanos, tanto aos “oprimidos” como aos “opressores”.

O mal se manifesta de muitas formas em todos os seres humanos. Uma forma, entre inúmeras, é quando um mais poderoso age injustamente com alguém menos poderoso. Mas, mesmo o ser humano mais fraco acaba oprimindo um outro em alguma forma. Enfim, Jesus foi a cruz por todos, pois todos são igualmente pecadores. E não foi apenas por causa da opressão, especialmente a de conotação neomarxista. O Jesus do Evangelho não permite que se escolha o que se quer condenar. Tudo o que é contrário ao caráter de Deus, conforme as Escrituras Sagradas, é condenado na cruz em Cristo, seja quem for o culpado.

Entretanto, nesse drama da cruz, Jesus revela um Deus que, numa dada forma, é opressor e intolerante. De um lado a cruz é o amor de Deus ao Jesus tomar sobre si a culpa de todo mal humano, propiciando perdão e transformação. Mas, se Deus assim se move, isso já denota uma intolerância dele para com o pecado e pecador não penitente. Do outro lado, a cruz revela em Jesus um Deus avesso ao mal que não alivia em nada sua justiça para com a malignidade humana. Jesus chama ao arrependimento.

Porém, Jesus também apontou para uma grande opressão e intolerância da parte de Deus – o dia do juízo final para os impenitentes sem a cobertura da cruz, independente de camada ou segmento social. Se o Jesus dos Evangelhos fosse ao carnaval, ou ele seria oprimido e alvo de forte intolerância, ou ele causaria uma reviravolta diametral nessa festividade. As estruturas e práticas carnavalescas seriam detonadas. E muito mais se daria na sociedade. Aliás, o Rio de Janeiro se tornaria uma “cidade maravilhosa.”