Assassinaram a vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro. Um fato lamentável. Entretanto, os argumentos das muitas manifestações exigem um revisitar a militância política e vida privada dela. Enquanto a investigação policial não esclarece o que se passou, e diante da oportunista balburdia ideológica que se manifesta, algumas ponderações são necessárias. 

Diante da morte de Marielle, é frisado enfaticamente que ela era negra, isso especialmente pelos movimentos esquerdistas e neomarxistas. Mas a cor da pele dela dificilmente provocaria um crime da dimensão do massacre dela. Há preconceito racial no Brasil, mas em geral ele não se manifesta dessa forma, particularmente na miscigenação carioca. O preconceito brasileiro, quando acontece, não é militante e violento, mas velado. Aliás, nisso ele tem sua própria perversidade. 

Também se levanta a bandeira da homossexualidade de Marielle, que na verdade adotava a sexualidade ainda mais embaralhada da bissexualidade. Ainda que seja oportunista para movimentos esquerdistas enfatizar essa identidade sexual dela, seria muito improvável que tal sexualidade fosse o motivo do massacre que ela sofreu. No Brasil atual, antes de uma militância agressiva de oposição a homossexualidade, acontece o contrário. O comum é a perseguição ferrenha a alguém que publicamente se posiciona contra as sexualidades alternativas. E mais, é conhecida a natureza permissiva da sociedade carioca. 

A terceira bandeira amada pelos neomarxistas é o fato de Marielle ser mulher. Porém, no Rio de Janeiro se assassina homens, mulheres e crianças. Não há nenhuma mobilização hostil e especifica antimulher que prometa luta violenta. Seria praticamente impossível se conceber que alguém venha a ser assassinado apenas por levantar a bandeira do feminismo neomarxista em voga.

Quando se considera o que envolve esse assassinato, o fato que parece se conectar com tal crime é a militância de Marielle cuja proposta a mídia define como “pelos favelados, contra a agressão policial”. Então, se concluiria que ela morreu por ser da favela e por defender os favelados que estão – todos eles – sob agressão policial. Isso indica um reducionismo ingênuo, focando especificamente contra uma suposta agressão policial indiscriminada, e sem separar o joio do trigo. 

É plenamente conhecido o campo de guerra que virou a grande Rio, particularmente nos redutos denominados de favelas. A realidade ali é o clima de faroeste. Pessoas morrem todos os dias, tanto cidadãos da favela, cidadãos não favelados, como policiais. Esse quadro vir a provocar mais um assassinato é lamentável, mas não é surpresa. No entanto é necessário abandonar a abordagem simplista da ideologia esquerdista dualista: “policia má e favelado bom”. Da mesma forma, é inaceitável um dualismo ao contrário. Sendo instruída no neomarxismo, a esquerda navega pelo binômio pueril e generalizador do opressor-oprimido. Porém, o quadro é muito mais complexo. 

É preciso lembrar que há tempos as autoridades denunciam, e o ministro da segurança pública Jungmann afirmou novamente nesta semana, que há uma banda podre na polícia carioca. E há também as criminosas milícias paramilitares que achacam vendendo proteção. É preciso também lembrar, com destaque, que as favelas são redutos de poderosos traficantes que comandam milícias numerosas e organizadas. É verdade que nas favelas há gente correta vítimas desse faroeste. 

Entretanto, é igualmente verdade que muitos favelados se promiscuem com a bandidagem, seja participando ou seja coadunando em alguma forma. E ainda, nesse cenário de terror, há a atuação necessária da correta polícia, como o é em qualquer sociedade civilizada, muitas vezes acuada, combatendo um invencível crime poderoso e territorialmente encastelado, e que manipula e explora a favela. 

Então, um politico que define sua militância a partir de um binômio simplista – policia versus favelados – é equivocado. Ser a favor da verdadeira polícia é ser a favor do favelado, e vice-versa. E ser a favor do favelado é se opor e denunciar especificamente a ala podre da polícia. E mais, ser a favor do favelado de bem, não criminoso, também exige denunciar em alta voz os muitos favelados traficantes e criminosos, e denunciá-los como a principal causa do problema. Ao adotar sua bandeira política do simplismo ideológico “nós contra eles”, Marielle se equivocou em não dirimir a complexidade desses diversos ângulos da realidade.

É lamentável que mais um assassinato tenha acontecido no Rio. Aguarda-se o elucidar sobre a quem executou o assassinato de Marielle. Mas, diante de tantas manifestações pelo acontecido, fica faltando se dar aos policiais de bem, que tem perecido na luta contra favelados criminosos, um tributo e protesto igualmente retumbante. E acima de tudo, fica a lição da necessidade de menos calor ideológico cego e mais lucidez quanto a complexidade da luta contra o crime no Rio e no Brasil. O bem e o mal cruzam as linhas entre segmentos sociais. Diante da criminalidade reinante, é estulto lutar a guerra errada por se ter uma visão simplista.