Há alguns anos, Gary Kasparov, campeão mundial de xadrez, foi derrotado pelo computador “Deep Blue”, uma maquina de 1,4 toneladas construída pela IBM. Isso suscitou uma enorme discussão sobre a relação entre homem e computador. E se especulou se o ser humano não poderia ainda criar uma máquina mentalmente idêntica a ele.

David Gelertner, professor de informática na Universidade de Yale, comentou, na revista “Time” de 19/maio/1997, essa vitória do “Deep Blue”: “A idéia que o Deep Blue tem uma mente é um absurdo. Como pode um objeto que nada deseja, nada teme, nada aprecia, nada necessita e não se importa com nada, ter uma mente?” Por esse argumento, e muito mais, não há como discordar do professor Gelertner.

Por mais espetacular que seja o “Deep Blue”, a distância entre máquina e ser humano é imensurável. Por ser o canal de expressão do espírito, a mente humana é única e é um diferencial intransponível. Por isso, a mente não se refere apenas a capacidade de raciocinar dados. O “Deep Blue” era capaz de raciocínio enorme e veloz. Entretanto, a mente humana é muito mais que raciocínio de dados. Ela formula apreensões, avaliações, projeções, comportamentos, necessidades e, acima de tudo, amor, justiça, eternidade e valores.

No aclamado livro “A Inteligência Emocional”, o autor Daniel Goleman narra a dramática história do casal Gary e Mary Jean Chauncey que repentinamente se acharam nas águas de um rio turbulento, onde caíra o trem em que viajavam. Eles se debateram para salvar a filha Andrea, de onze anos, fisicamente limitada devido a paralisia cerebral. De dentro da água e exaustos, Gary e Mary conseguiram passar a filha para os salva-vidas, mas o casal pereceu.

Daniel Goleman conclui que “somente o amor” poderia explicar tal sacrifício pessoal.  Porém, é desconcertante a justificativa desse autor para a atitude nobre daqueles pais. Ele reduz o amor desses pais a uma reação do instinto evolucionista da sobrevivência – pais procuram salvar a prole para a espécie sobreviver.

Porém, a sublimidade do amor extrapola o reducionismo evolucionista.   Se o motor da evolução é a sobrevivência dos aptos e fortes, qual seria a motivação evolucionista para se salvar uma criança incapaz e débil? E, a “lei da sobrevivência do mais forte”, não deveria levar os pais a se salvarem e abandonarem a débil filha? E como explicar pais que fazem mal a filhos saudáveis?

O fato é que o ser humano não é explicado pelo reducionismo evolucionista. Há no ser humano dimensões espirituais excepcionais como a volição que se confronta com dilemas morais, podendo ir tanto para o certo como para o errado. Nas conjunturas mentais, o ser humano escolhe consciente tanto o mal como o bem, e por isso é responsável pela escolha. E quando se trata de amor, ele a formula como valor correto, e a falta dele como errado.

E mais, é inato ao ser humano o ansiar pelo amor. E existe uma dimensão ainda mais profunda nesse anseio pelo relacional e amoroso. É o anelar pelo amor de Deus. Na mente humana o espírito se expressa se sentindo incompleto, perturbado e solitário. Agostinho, o teólogo do IV século, expressou adequadamente: “Nossas almas estão profundamente inquietas, ó Deus, até que encontrem descanso em Ti.” E esse clamor por amor envolve o clamor por nexo diante da transitoriedade da vida e a perspectiva da eternidade.

No artigo acima citado, o professor Gelertner conclui assim: “É concebível que um dia os computadores venham a ser melhores que os seres humanos em quase tudo… Máquinas continuarão tornando a vida mais fácil…”. Porém, o autor finaliza: “E os seres humanos continuarão se importando com aquilo que sempre se importaram: consigo mesmos, os outros, e muitos deles, com Deus”. Na verdade, todos sempre se importarão com Deus, ainda que lidando de formas diversas, e muitos com abordagens incorretas.

Depois de tudo dito e feito, o íntimo do ser humano clama pela companhia do amor que corresponda à eternidade inerente ao seu espírito. O salmista escancarou a verdade do íntimo humano ao exclamar: “Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por Ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo.” (Salmo 42) E Cristo fechou a questão quando respondeu ao apelo do discípulo Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” Cristo respondeu categoricamente: “Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer mostra-nos o Pai?” (Bíblia, João 14:9)