Há uma velha piada que é mais ou menos assim: “Depois de fazer aconselhamento e terapia, agora sei que nada é culpa minha”. Nós rimos disso e pensamos nas pessoas que conhecemos que pensam ou agem assim. O problema é que grande parte dos músicos, escritores e pregadores cristãos modernos aceita essa piada como verdade.

No cerne da piada está o reconhecimento de que existem de fato “terapias” que enfatizam que somos passivos e que forças fora de nós e além de nosso controle agem sobre nós. Essas “forças” me levam a agir de maneira destrutiva. Como sou “passivo” nessas áreas da minha vida, não é realmente minha culpa ter feito essas coisas. É culpa das “forças”.

Geralmente, os cristãos evangélicos discordam do que acabei de dizer. Quando essa proposta é afirmada claramente, reconhecemos que a Bíblia ensina a verdadeira liberdade e responsabilidade humana. Não a total liberdade divina, mas a liberdade real e concreta. A Bíblia ensina a responsabilidade real por muitas, senão todas as nossas ações.

No entanto, é cada vez mais comum ouvir a fé dos cristãos descrita em termos como estes: “Estamos em sofrimento”; “O Senhor veio a nós em nossas mazelas”; “Ele veio nos livrar de nossa tristeza e vergonha”; “Na cruz, Jesus veio ao encontro de nosso sofrimento e vergonha e tomou-os sobre si para redimi-los”.

Agora, há um sentido real em que todas essas afirmações são verdadeiras. O problema é que declarações como essas estão expulsando de nossas pregações e músicas a linguagem do “Você peca”; “Você está em inimizade com Deus”; “Você se afastou dele”; “Você suprime a verdade sobre Deus”; “Você o rejeitou”; “Você rejeitou sua Palavra”.

Você percebe a diferença? A linguagem da tristeza e da vergonha é a linguagem passiva. Está descrevendo algo que aconteceu com você. A linguagem do “pecado” é uma linguagem ativa. É algo que você faz. Se a linguagem da nossa música, aconselhamento e pregação usa principalmente a linguagem passiva, ou usa a linguagem passiva para explicar a linguagem ativa, não estamos mais sendo bíblicos e começamos a adotar uma visão de mundo que diz “não é minha culpa”.

A Bíblia reconhece que podemos estar tristes e envergonhados, sabe que podemos ser vítimas, mas a linguagem primária e governante é a linguagem ativa do pecado. Os seres humanos são essencialmente ativos. Nós não somos essencialmente passivos. Nós escolhemos. Nós fazemos. Nós respondemos.

Outra maneira de perceber isso é observar que a tendência moderna do cantar e falar reflete uma trágica confusão entre ser passivo e ativo. A principal linguagem das escrituras é que, quando se trata de graça e misericórdia, somos passivos. Deus faz por nós o que não podemos fazer por nós mesmos. Quando se trata de salvação, recebemos, somos tratados pelo Senhor, que é cheio de poder, misericórdia e graça.

Tragicamente, quando enfatizamos que, em nossas “falhas”, somos passivos, acreditamos que nossa salvação é primariamente ativa – algo pelo qual somos responsáveis. Mas a Bíblia ensina esse maravilhoso mistério: somos ativos em nossos pecados e passivos na salvação. Então, o nosso receber “passivo” da graça inflama o nosso desejo pela santificação ativa.

_________________________

George Sinclair é pastor anglicano e atua como presidente de uma força-tarefa para tornar a Rede Anglicana no Canadá mais profundamente bíblica em todos os níveis. Ele é diretor do Ryle Seminary, em Ottawa. George é membro do Conselho original do The Gospel Coalition Canada.

Texto original (em inglês) “Not My Fault” disponível em: https://ca.thegospelcoalition.org/article/not-my-fault/

Traduzido e adaptado por Alexandre Valotta da Silva.