Mais um Carnaval chega, e mais uma vez surge o tal do “não é não”. É o esforço das mulheres carnavalescas para não serem alvos de avanços sexuais por parte dos homens. Em trajes bem reduzidos e sexualmente provocantes, afirmam “não é não”.  É um desafio fazer sentido desse “não é não” dentro do Carnaval.

O respeito pelo indivíduo, homem ou mulher, especialmente na área sexual, é indiscutivelmente devido. O assédio sexual, mais comum de homem para a mulher, bem como abuso sexual, é reprovável e condenável, sendo acertadamente um crime. Porém, isso é sustentado dentro de valores, e relacionamentos por eles pautados, que afirmam a dignidade humana, inclusive no sexo.

Nesses valores o indivíduo não se barateia e nem barateia o próximo, em nenhuma forma. Nesses valores há uma mutualidade de respeito em todos os sentidos. Mas, isso somente quando se afirma esses valores. Atitudes, inclusive quanto ao modo de vestir, devem refletir tais valores, se o ser humano há de preservar sua dignidade e os limites a serem respeitados. Por isso, “não é não”, num ambiente carnavalesco, é incoerência plena.

Certamente nesta era ninguém é ignorante sobre os fatos, naturalmente impetrados, da dinâmica sexual. Entre esses fatos do sexo estão o estímulo e comunicação. Eles estão sempre presentes, potencialmente ou ativamente, quando um homem e mulher se deparam. Serem potenciais ou ativos depende do comportamento e atitude, inclusive do vestuário.

Entre os sentidos humanos está o tato e a visão. O dois são canais ativos na experiência sexual, tanto na forma certa, como na errada. E os dois sentidos, então, poderão ser canais de assédio e abuso sexual, tanto do homem, como da mulher. E na dinâmica desses fatos, é tolo ignorar que os dois sexos, mas muito especialmente o homem, é profundamente atingido pelo visual sexual provocante da mulher. Se ela adota o vestir atiçador, ela invade visualmente o limite privado do estímulo do homem. Se cabe um “não é não” para o tocar sem permissão, também cabe o mesmo “não” para o provocar visualmente. O homem erra se avançar, e a mulher erra em provocar. Dois igualmente errados.

Quando uma mulher sai para o Carnaval afirmando o “não é não”, mas em roupas provocantes, particularmente numa festividade que promove a leviandade, a questão que isso suscita é o que essa mulher está pensando. Certamente ela se vestiu para provocar os homens. Quer chamar atenção sexualmente. E nessa provocação geral ela espera encontrar um parceiro que ela idealiza. Porém, nessa expectativa de encontrar um, ela adota a tática de se expor a todos os homens.

E nessa tática ela comunica a todos que é uma mulher aberta a encontrar fortuitamente um parceiro. Entretanto, o público masculino desconhece, e ela também, quem seria esse esperado parceiro. Questões ficam no ar. Quem pode avançar? Quando pode avançar? Qual é a velocidade do avançar? Quanto é avançar demais? Quando pode avançar sem limites? Nada é definido. Ninguém sabe as respostas e limites, os avanços acontecem como se esperados.

Assim, tudo se torna um jogo público e misterioso, de todos para com todos, mas não no resguardo da dignidade moral e visual. É o jogo jogado na expressão visual leviana no qual é quase impossível se colocar limites. A mulher acaba provocando a todos, apresentando-se como disponível sexualmente, atraindo, e estimulando fortemente, o avanço de qualquer um.  É esperado que alguns concluem que, se ela intencionalmente invadiu o visual deles, elas desejam que eles invadam o tato delas, inclusive pensando que são o que ela idealiza. E, como não faltam homens em busca de leviandade, especialmente no Carnaval, o pior deve ser aguardado.

“Não é não” é incoerente e inapto para lidar com essa receita do vestuário provocante no carnaval. Esse “não é não” é um exemplo típico da ausência de sabedoria. A lei existe para coibir e condenar violações da dignidade e integridade. Porém a lei tem seus limites quanto à sua eficácia. E, mesmo com leis, não custa muito para o abuso acontecer num mundo que tem pleno estoque de desmoralização sexual. Mulher sexualmente exposta no se vestir, dizendo “não é não”, é tão tola como o sujeito que anda pelas calçadas do centro de São Paulo, abanando visivelmente milhares de reais em suas mãos, enquanto grita o “meu é meu”.

A mulher prudente sabe que, antes de contar com a proteção da lei, ela deve buscar o abrigo da sabedoria. Roupas sumarias junto com “não é não” é combinação estulta. A mulher sábia se protege e resguarda com dignidade, a começar pelo vestir e o festejar. E ela procura o relacionamento moralmente virtuoso e edificante. Isso se aplica igualmente aos homens. Pessoas sábias vivem pelo “não é não” com coerência.