O Natal chegou. E também o frenesi, agravando o estresse já tão comum ao cotidiano. Ninguém viveu mais intensamente a experiência do Natal do que Maria, mãe de Jesus. Porém, o estresse não dominou o Natal dela. Ela atravessou situações explosivas.

Na sua juventude, solteira, repentinamente, Maria é informada, por uma visão angelical, que ficaria gravida de forma inesperada e incomum. E também que seu filho viria para uma missão extraordinariamente desafiadora. Nisso, visando realizar um censo, as autoridades romanas decretam que cada cidadão deve ir se registrar na cidade de origem da família. Maria, grávida de nove meses, é forçada a viajar cerca 140 quilômetros, indo da Galileia a Belém. Isso a pé ou montada num animal, vagueando por planície e montanhas. Acaba dando à luz em Belém. Mas faltou hospedagem adequada para ela e bebê, forçando uma improvisação em espaço designado para animais.

Enquanto, naquele improviso, Maria está concentrada em amamentar, limpar e cuidar do bebê, repentinamente adentraram uns pastores de ovelha, estranhos, rudes e malcheirosos. Eles explicaram que foram orientados por um anjo a visitar o bebê, e com esta mensagem: “Hoje na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. ” (Lucas 2:11)  E narraram que surgiram mais anjos cantando esta verdade: “Glória a Deus… paz aos homens a quem Ele concede o seu favor.” (Lucas 2:14) Ou seja, proposições únicas e revolucionárias, não somente para o bebê, mas também para a humanidade toda.

É marcante a atitude de Maria. Em meio a tudo o que acontecia, o registro relata: “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração.” (Lucas 2:19) Enquanto um turbilhão passava por sua vida, o texto da narrativa relata que Maria “guardava” e “refletia”, e assim fazia com “essas coisas”.

Maria entendeu que o Natal é estritamente sobre certas “coisas” definidas, transcendentes e preciosas. O verbo “guardar”, no antigo grego, língua original do texto, se refere a preservar na memória. Havia um conteúdo que estava firmemente registrado na mente de Maria. Eram as “coisas” reveladas pelos anjos a ela e, depois aos pastores, somadas e em consonância com profecias bíblicas proclamadas nos séculos anteriores. As “coisas” eram verdades e realizações.

Pelas palavras do anjo aos pastores, as tais “coisas” envolviam “salvador”, “Cristo” e “o Senhor”. E ainda, havia o anuncio que Deus “concede seu favor aos homens”, proporcionando um tipo de “paz” única. Diferente do estresse, a “paz”. Em meio a todo o frenesi do Natal, é preciso recobrar o que é fundamental. É preciso gravar na mente o conteúdo do Natal, conscientemente sabendo a dimensão única e sublime do significado de cada elemento desse conteúdo. Maria assim gravou.

Os títulos anunciados pelos anjos quanto ao bebê – “Cristo”, “salvador” e “Senhor” –  falam de um ser único e numa ação única entre os humanos, mas também de um cumprimento histórico de alguém historicamente definido e estabelecido. Depois de se revirar filósofos e religiões, esse conteúdo há de surpreender e maravilhar por seu caráter único e suficiente.

“Cristo”, o messias ou o ungido, reflete o que os profetas anunciaram séculos antes. Falaram sobre aquele que Deus enviaria com a missão especial de inaugurar a era da esperança e paz com Deus. “Salvador” expressa que a condição humana, rompida com Deus, está condenada e precisa de um resgatador que propicie graciosamente o perdão, transformação e  reconciliação com Deus. O bebê era esse salvador.

Porém, esse salvador, que resgataria o ser humano da culpa e condenação através da cruz, é também “Senhor”. Naqueles dias do império romano, “Senhor”, ou “kurios” no grego antigo, era equivalente ao título imperial “Cesar” no Latim. Então, chegava esse o novo “Cesar”, que era “o Cristo”, para um trazer um reino diferente, estabelecido de forma diferente por esse que era também “Salvador”.

E os anjos proclamaram: “…paz aos homens a quem Ele concede o seu favor.” É importante notar que é equivocada a popularizada versão: “paz aos homens de boa vontade.” A boa vontade, ou favor, é de Deus. Então, chegava um reino baseado na “paz” concedida ao ser humano pelo “favor”, ou graça, de Deus nesse que é o “Cristo”. Portanto, seria a paz intima e eterna com Deus, distinta da transeunte “pax romana”, ou paz político-social, que imperava no mundo naqueles dias. Uma paz imposta pela opressão de um forte exército humano.

Maria tinha muito a guardar, mas o relato diz que Maria também “refletia” em seu coração. Ou seja, não mera especulação superficial, mas num envolvimento íntimo que procurava apreender para si. Entre as sugestões oferecidas numa mídia para amenizar o estresse do Natal, há até a prática da ioga. Natal e ioga são tão excludentes que chega a ser risível essa sugestão. Para se perceber isso é preciso atentar para as “coisas” que Maria “guardava” em contraposição a ioga baseada no hinduísmo e panteísmo. Bem como atentar para o que reflexão significa.

Maria refletia. Maria não meditava, no sentido de “meditar” na atualidade. Por influência mística asiática-oriental, está em voga o meditar ou contemplar panteísta. Isto é, o se buscar um estado, impossível, no qual se entraria numa suspenção mental diante da realidade. Um estado no qual verdades e proposições desaparecem, pois são vistas como ilusões. É um destituir-se do conteúdo racional. É atitude que almeja a passividade, sendo o alvo o integrar-se com o todo, deixando de existir se existir como indivíduo.

A ioga é exatamente o esforço para eliminar o “refletir” de Maria. Refletir é pensar em proposições. Na língua grega do texto, o termo “refletia”, aplicado a atitude de Maria, tem o significado de “ajuntar para comparar”. É atividade e não passividade. É o ato de se tomar verdades, examiná-las em conjunto, procurando entender o sentido delas. É assimilar o sentido de um conteúdo.

Maria não contemplava ou refletia sobre sua própria pessoa. Maria buscou compreender a ação misericordiosa de Deus para resgatar o ser humano da culpa, vazio e tumultos emocionais. Tudo decorrente do desacerto com Deus. Maria se concentrou no plano divino que viabiliza o encontro com o eterno Deus. E assim viabiliza a paz intima que vem dele, produzindo paz com Ele, através do favor dele em “Cristo.” Num mundo vazio e conturbado, Natal é sobre o bem-estar único e intimo que passa pelo guardar e refletir no que o anjo chamou de “boas novas”.