É enigmático o fato de o natal ter sido um evento desalojado. Como o nascimento de Cristo foi um projeto divino, é intrigante que não tenha sido preparado um lugar adequado para tal acontecimento. Diz a narrativa bíblica que José e Maria e foram parar numa estrebaria “Porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lucas 2:7) E o primeiro berço foi uma manjedoura. Parece que tudo acabou no improviso e num lugar inapropriado – uma estrebaria.

Essa conclusão é ainda mais intrigante porque o natal não foi um acidente. O Natal foi anunciado séculos antes do nascimento de Cristo. Até a cidade, Belém, foi escolhida com antecedência. Profetizando 700 anos antes de Cristo nascer, o profeta Miquéias proclamou: “Mas tu, Belém-Efrata, embora pequena… de ti virá… aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante…” (Bíblia, Miquéias 5:2) Deus determinou a cidade, mas se esqueceu de prover uma acomodação apropriada para o nascimento de Jesus Cristo?

Entretanto, isso suscita alguns questionamentos: Qual seria um ambiente apropriado para o Natal – Deus em Cristo? Qual condição poderia ser considerada adequada para o “Emanuel” – “Deus conosco”?  (Isaias 7:14; Mateus 1:23) O que seria necessário para um local, ou alguém, se tornar adequado para receber o próprio Deus?

Antes dessas indagações, outras têm precedência. O que Deus estaria afirmando se ele escolhesse um dado ambiente que, na avaliação humana, fosse considerado adequado para a divindade?  E mais, poderiam os esforços humanos construir um ambiente digno de Deus? O fato é que, se para o natal Deus escolhesse um lugar que fosse adequado pela ótica humana, Deus estaria afirmando que o ser humano pode pelos seus esforços construir um ambiente que seja adequado para a gloria e santidade de dele. Porém, a estrebaria e o cocho declaram exatamente o contrário.

Qual ser humano está em condições de receber a presença de Deus? O apóstolo Paulo afirmou: “…todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus…” (Bíblia, Rm. 3:23) Os que se autodenominam capazes de se autoaperfeiçoarem até a medida divina, têm sua verdadeira realidade e impossibilidade expostas pelo natal da estrebaria. Assim como Deus não considerou adequado para o Natal um palácio na gloriosa Roma, capital imperial, também nenhum ser humano é adequado para Ele.

Contudo, o fato é que, apesar do local ser uma inadequada estrebaria, Cristo ali nasceu. A estrebaria ilustra que é a adequação da graça de Deus, e não a adequação humana, que possibilitou a aproximação de Deus do ser humano. E foi Deus quem tomou a iniciativa de vir a estrebaria da vida humana. Os palácios humanos, internos e externos, não buscam a Deus e nem poderiam merece-lo. O Natal da estrebaria é a manifestação graciosa não encontrada em nenhuma religião, pois é exclusividade de Deus manifesto em Cristo, conforme o Evangelho. Deus quis vir em Cristo.

O natal é sobre Deus nascer encarnado em Cristo, mas num cocho por berço. O cocho inadequado do nascimento é uma metáfora que aponta para o instrumento plenamente inadequado para a morte dele – a cruz. Nela Cristo, santo e perfeito, toma sobre Ele toda a inadequação humana – pecado e condenação.

E, pela morte substitutiva e sacrificial, Cristo possibilita o perdão pleno e gracioso que reconcilia o ser humano com Deus. É a graça plena e eficiente de Deus em Cristo. Enquanto os palácios são para apenas alguns humanamente privilegiados, a estrebaria é para qualquer um, mas a ela vai somente o quebrantado e humilde. Assim é o acesso ao Deus do Natal.

Deus poderia resolver facilmente o problema de falta de lugar para Cristo em Belém. Porém, essa não é a questão. O cerne do problema é que não há lugar para Cristo nas estruturas humanas. Nelas habitam a prepotência e autossuficiência – são palácios. Em quem há humildade e quebrantamento para reconhecer sua inadequação, e clamar pela presença adequadora de Deus em Cristo, com todas as implicações decorrentes? Somente quando se ver que os variados “palácios” humanos são estrebarias, se clamará pela presença de Deus mediada pela adequação graciosa em Cristo. E Deus virá – É o Natal.