O berço é um dos itens escolhidos com esmero por pais aguardando a chegada de um bebê. E isso faz todo sentido diante da sublimidade e dádiva da vida na forma de um infante. Então, pais nunca escolheriam um cocho, utensílio para alimentar animais, para ser o berço de seu filho. Por isso é profundamente desconcertante, bem como intrigante, o fato que um cocho foi o berço de Jesus Cristo quando do seu nascimento. E mais intrigante ainda é que a história conspirou de forma precisa para que isso acontecesse. Esse berço improvisado de Jesus Cristo não foi fruto do acaso.

Cesar Augusto, imperador Romano, ordenou um censo com a finalidade de taxar impostos. Herodes, rei da Galiléia, que caíra em desgraça diante do imperador, foi advertido que não seria mais considerado como amigo, mas como vassalo. O território de Herodes foi sujeito ao censo. Quirino, interventor romano na Síria, e que mais tarde seria efetivado no posto de governador, conduziu o censo no domínio de Herodes.

Tendo em vista os preparativos diante da transição administrativa e o desafio das turbulências políticas dos judeus, o censo ordenado para 7 AC na Palestina foi realizado tardiamente, cerca de  5 ac. O sistema dos censos romanos é registrado num papiro Egípcio de 104 dc, guardado no Museu Britânico: “…por causa do próximo censo é necessário que todos residindo fora de seus distritos se preparem para voltar imediatamente para seus governos…”

José e sua esposa Maria, que estava para dar a luz ao seu filho Jesus, estavam sujeitos ao censo realizado em 5 AC, na Palestina.  O sistema do censo os obrigou a partir de Nazaré, onde residiam, e ir a Belém, a cidade de origem da família de Maria, numa antiga linhagem que remontava até Davi, rei maior dos judeus de séculos antes. Com tal movimentação provocada pelo censo, as acomodações se esgotaram em Belém. O jovem casal precisou se abrigar numa estrebaria, onde Maria acabou dando a luz. O berço improvisado para seu filho, Jesus Cristo, foi um cocho, ou uma manjedoura. “Enquanto estavam lá… ela deu à luz o seu primogênito… e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria,” narra o doutor Lucas (Lc 2:6-7, Bíblia).

Se alguém fosse forjar uma religião, a manjedoura não seria o berço de nascimento que daria ao seu herói maior ou fundador. E muito menos culminaria a narrativa com a morte vergonhosa de uma cruz, suplicio tão cruel e humilhante que a lei não permitia ser aplicado a um cidadão romano. Mas o Cristianismo, portanto, o Natal, não é produto humano. É divino. No entanto, mesmo assim é perturbador ver que Deus moveu reis e governantes para proporcionar um início de vida tão desconcertante, como o cocho-berço, para o personagem central da fé. Porém, isso não é mero capricho ou espetáculo de ternura. O cocho, como o berço no nascimento, revela a essência da pessoa e obra de Cristo que teria como destino a cruz.

Já desde o início, o Natal deixa evidente que Cristo veio ao mundo para ser vestido de humilhação. Ele deixou a glória para se identificar conosco. Ele veio para cumprir a missão de servo; e servo sofredor, que sobre si tomou na cruz o peso de nossa condenação. Ele veio se identificar plenamente com o ser humano, revelando a pobreza da realidade humana composta da ilusão da exaltação, egocentrismo e autossuficiência. Realidade essa que nega ou compromete a gloria absoluta de Deus. Seguir a Cristo pede uma revolução na atitude humana. O berço, como a cruz, é a oportunidade do ser humano abandonar a fantasia da gloria humana, e afirmar a gloria única de Deus, como aconteceu no Natal do cocho.

No Natal é manifesto que o convite de Cristo é para os de coração humilde. Somente aquele que se quebrantar, deixando o orgulho manifesto na exaltação humana, é que irá querer se identificar com o deitado num cocho. Aquele que se afirma na sua própria glória, inclusive de autoretidão moral e espiritual, nada quer com quem está no cocho e a caminho da cruz. O cocho é uma antessala da crucificação de Cristo. Somente quem se desveste de poder, glória e autossuficiência, reconhecendo sua culpa e vazio, irá procurar a Cristo.

Cristo não é recolhido a hospedagem disponível para quem podia pagar, portanto, aquela acessível a poucos e privilegiados.  Ele é conduzido ao estábulo. O estábulo é acessível para todos. Cristo veio para todos. Mas é um acesso que exige humilhação e quebrantamento. Cristo nasce para a cruz, sendo assim, o cocho é uma sombra da humilhação da cruz. Cristo assume a culpa humana     tomando sobre si a condenação humana, provendo o meio para o perdão. Assim Cristo proveu o encontro com Deus, então, paz com Deus e significado eterno para a existência.