Ao passar por um pomar e ver peras deliciosas, o rapaz não resistiu. Roubou algumas peras. Por que ele roubou? Ele não tinha fome e nem era pobre. Qual foi a motivação do roubo? O personagem desse episódio foi Agostinho, o ilustre filósofo e teólogo do IV século dc, que narra esse fato em seu livro “Confissões”. Num exame íntimo, Agostinho revela que roubou as peras porque “teve uma alegria no roubo e pecado”.

Diferente de Agostinho, na atualidade há uma atitude comum de negar a existência do pecado, ou o mal, simplesmente ignorando-o. Isso vem junto com uma visão comum, introduzida por diversas correntes das ciências humanas, que o ser humano é naturalmente bom e culpa vem de regras impostas pela sociedade. Pecado é visto como ultrapassado.

Entretanto, é evidente a presença do mal, manifesto na prática pecaminosa, numa sociedade visivelmente decadente e nas pessoas comumente desacertadas interiormente e exteriormente. Diante desse quadro é dito que um pouco mais de economia, pedagogia e terapia resolverá tudo. Ou seja, não há pecado e mal a ser equacionado, confrontado e tratado. Quando acontece de se conceder algum espaço para se debater a questão do mal e pecado, depois de uma averiguação, se conclui que ninguém sabe o que é pecado ou mal. Falta referência.

Num outro tempo e num outro lugar, duas pessoas receberam a ordem para não tocar e comer do fruto de uma dada árvore. O próprio Deus é quem deu esse comando para elas, cujos nomes eram Adão e Eva. Esse fruto não era uma maçã, porque a narrativa não informa o fruto. E não se tratava do sexo, porque Deus já havia criado o sexo antes e afirmado que o sexo era bom, se desfrutado na forma delineada por Ele dentro do matrimônio (Genesis 1:27-28, 31).

O fato é que Adão e Eva podiam comer e desfrutar de tudo mais, exceto daquele o fruto daquela arvore especifica. Eles podiam usufruir de toda criação e inventar lançando mão de todas as outras matérias primas e recursos do habitat deles. Assim foi até que um dia um deles foi abordado pela insinuante tentação que assim provocou: “Deus sabe que, no dia em que dele comerem… vocês como Deus serão…” (Genesis 3:5, Bíblia).  Nada podia ser mais atrativo: ser como Deus. Era apenas necessário comer do fruto.

Esse é o cerne do pecado. Não o fruto em si, cuja identidade é desconhecida, e a identidade é irrelevante para a essência do drama. O cerne do problema é a atitude íntima – uma questão espiritual. O cerne é a proposta da tentação – ser como Deus. O comer o fruto, ou não comer, manifestava a visão e posição interior, do ser humano, sobre si em relação a Deus. Quem pode decidir e dar direção para a vida: o ser humano ou Deus? Pode o ser humano substituir Deus no seu viver? É Deus descartável enquanto referência moral e existencial?

A tentação questionou essa perspectiva e convidou os seres humanos para uma nova postura – ser como Deus. No lugar de viver reconhecendo constantemente a centralidade e exaltação de Deus, a opção oferecida era o ser humano se tornar como Deus. O ser humano construiria sua própria realidade e existência. Então, não mais viveria glorificando a Deus em pensamento e atos, mas, colocando a si mesmo como referência, o ser humano viveria para sua própria gloria – antropocentrismo, ou, humanismo. Esse é o cerne do pecado. E essa postura para com Deus é que leva o ser humano a todas atitudes reprováveis.

Precisava Agostinho daquelas peras? Não. Precisava Adão e Eva daquele fruto? Não. Mas há uma prazerosa atração humana, porem, torpe, ilusória e destruidora, que insiste em querer ser autônomo diante de Deus. Mesmo que seja religioso ou tenha “fé em Deus”, isso não significa uma vida para a glória de Deus.

Por dispensar o pecado, e não focar na questão da centralidade da glória de Deus, as ciências humanas fracassam ao tentarem consertar o drama humano. A solução é por outro meio. É necessário reconhecimento do mal no interior e exterior, quebrantamento e a volta a Deus – um viver para a gloria de Deus. Somente o poder e dádiva da morte de Cristo na cruz revertem esse quadro, recolocando Deus no centro.

Encontrar-se com Deus através da cruz é reconhecer a culpa desse delito maior de buscar autonomia diante de Deus. É reconhecer que Deus em Cristo, substitutivamente, no amor inexplicável dele, tomou sobre Ele a pena devida e tudo pagou graciosamente. E é entregar a vida para servir a gloria de Deus. É oportuna a declaração do apóstolo Paulo: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” (Bíblia, Gl 2:20)